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terça-feira, 22 de novembro de 2022

um texto por dia: "como imaginas a terra em 2122?" (2)

Tal como ontem aconteceu, hoje publicamos mais um dos onze textos do 10º A publicados no jornal PÚBLICO. Um por dia...

Do tempo em que havia estações do ano

Máscaras.

Era isso que Kenna via quando entrava na carruagem do comboio.

Era isso que Kenna via todos os dias quando saía de casa.

E era isso que a entristecia tanto.

Pois, mesmo sem poder respirar sem elas, as máscaras impediam que as pessoas se reconhecessem ou que convivessem umas com as outras.

Kenna podia sentar-se à beira da mesma pessoa, durante anos, que nunca iria saber quem era. Infelizmente, todos os cuidados eram necessários, pois, com os gases tóxicos espalhados pelo ar, se alguém saísse de casa sem as proteções necessárias, acabaria morto. Por isso mesmo é que, mesmo não gostando de utilizar as máscaras, Kenna não se queixava.

Embora as janelas fossem escurecidas, ela conseguia ver o contraste entre as nuvens pretas de fumo e o branco da neve que teimava em não derreter. Kenna lembrava-se do seu avô que lhe havia contado como, há vários anos, existiam “estações do ano” e como, dependendo da época em que estavam, havia neve ou flores, calor ou folhas. Agora já só existia o frio onde Kenna vivia.

desenho de Renata Guedes, aluna de 11º ano, Ermesinde

Dos altifalantes saiu a voz da senhora que anunciava as estações, alertando os passageiros de que se estavam a aproximar do fim de linha. Assim, quando o comboio parou, as pessoas saíram e dispersaram-se tão rapidamente que, em apenas alguns segundos, já quase não se via ninguém. Kenna estava também entre essas pessoas, afinal não se podia ficar ao ar livre durante muito tempo, mesmo com os fatos de proteção que todos usavam.

Com as botas a enterrarem-se na neve a cada passo que dava, Kenna dirigiu-se para as escadas que ligavam aos túneis subterrâneos. Estes permitiam que as pessoas se dirigissem aos locais mais importantes da cidade sem terem de se expor ao ar exterior. O mar de pessoas que se movimentava sem descanso rapidamente engoliu Kenna. Tendo só 12 anos e, portanto, sendo ainda baixa, ela conseguia apenas olhar para cima e tentar ver quando chegara à sua saída. Assim que avistou o sinal por que esperava, esgueirou-se pelo meio da multidão. Mal conseguiu escapulir-se da massa de pessoas, Kenna acelerou o passo, dirigindo-se para o portão com um H em azul. Passando o seu cartão para conseguir atravessar a entrada, um familiar lance de escadas acolheu-a. Ao subi-lo, Kenna passou por várias salas onde sabia que estavam mais pessoas do que deviam. Nunca havia espaço suficiente no hospital. Quando chegou à sala que procurava, bateu à porta e esperou que alguém lhe respondesse.

– Podes entrar, Kenna.

Abrindo a porta, ela entrou e foi recebida com uma visão já conhecida: o seu avô sentado na cama com uma foto de papel na sua mão morena e enrugada.

– Bom dia, avô.

Finalmente tirando a sua máscara, Kenna deixou, à vista do mundo, os seus olhos cinzentos e pele pálida.

– Como é que foi a viagem até aqui?

Ela rapidamente ocupou a cadeira solitária à beira da cama.

– Tal como todas as outras vezes…. Será que me podes contar outra história tua e da avó?

O avô sorriu e as rugas por baixo dos olhos apareceram.

– Claro que sim, deixa-me ver…. Era primavera, a estação preferida da tua avó, quando saímos para um passeio na praia…

                                                                                                                                        Lara Silva, 10º A         

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