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09/06/2016

do avesso, as escolhas de...

Amanhã é sexta-feira e seria, por isso, dia de "as escolhas de...", rubrica da responsabilidade das alunas Ana Pinto e Rita Almeida. Contudo, estas alunas cessaram a sua colaboração com o CRESCER na passada semana, com as escolhas do professor Ferreira, nosso diretor, pois são alunas finalistas e estão, agora, em fase de preparação para os exames nacionais.

Ana Pinto, à esquerda, e Rita Almeida, à direita



Para agradecer o seu precioso contributo, a direção do CRESCER decidiu virar a rubrica do avesso e entrevistou as duas alunas. Assim, os rostos que hoje damos a conhecer são os das alunas Ana Pinto e Rita Almeida, a fotógrafa e a jornalista desta rubrica, respetivamente.







Como avaliam a vossa passagem pelo Crescer? O que vos proporcionou?
Nenhuma de nós estava à espera desta proposta para colaborar no jornal Crescer e, na verdade, nunca nos tínhamos ligado tanto a um projeto deste teor. Arriscámos e foi maravilhoso. Este trabalho que desenvolvemos nas “escolhas de…” humanizou-nos de um modo muito peculiar, uma vez que nos foi aguçando a sensibilidade para compreender os outros, deu-nos uma disposição diferente e, acima de tudo, fez-nos perceber que aquelas pessoas que se sentavam à nossa frente – e todas as outras que não conseguimos entrevistar – são pessoas que têm de ser conhecidas dentro e fora da sua qualidade de funcionários ou professores.
A nossa passagem pelo Crescer foi, para nós, muito gratificante, tendo-nos proporcionado coisas indescritíveis. Despertou em nós o “bichinho” do jornalismo e permitiu-nos, ainda, criar um canto no Crescer. Vamos recordar este projeto com muita saudade.

O que mais apreciaram na rubrica "as escolhas de..." de que foram responsáveis?
Desde a primeira publicação à última, tudo nos agradou.
Estamos todos tão habituados a ver uma certa cara, a ouvir uma certa voz e a ver as mesmas pessoas nos mesmos sítios que nem nos passa pela cabeça que as caras, as vozes e as pessoas são mais do que a possível imagem que criamos delas, são mais do que a constante presença que estamos habituados a sentir. Com o evoluir da rubrica, fomo-nos apercebendo que o objetivo não era só dar a conhecer, mas também mostrar a índole de cada pessoa, que sempre nos deixou fascinadas. Na verdade, a essência da conversa não está só no nosso trabalho, mas, principalmente, nas pessoas que entrevistamos.
Foi engraçado conhecer as pessoas por detrás dos nossos professores, por detrás de quem nos atende na papelaria e no bar, por detrás de quem orienta o nosso agrupamento, por detrás de quem nos recebe todos as manhãs com um bom dia, isto é, por detrás do mito que envolve cada parte/pessoa que cuida da nossa escola. Para além disto, ver a reação calorosa dos leitores foi sempre muito gratificante e incentivador, uma vez que era a prova de que conseguimos realmente mostrar o maravilhoso de todos estes rostos.
  
Como finalistas que são, vão deixar a escola. Que mensagem deixam aos colegas que possam vir a seguir as vossas pisadas?
Nós achamos que os alunos devem arriscar e envolver-se, porque vale mesmo a pena.  A direção do Crescer deu-nos suporte e incentivo para que conseguíssemos desenvolver as “escolhas de…”, tendo tornado esta experiência ainda mais especial e enriquecedora. O trabalho de equipa, as diferentes personalidades e opiniões dos entrevistados e a simpatia dos leitores fizeram-nos expandir horizontes e desenvolver outras perspetivas, algo que levaremos sempre connosco. É importante inovar e criar coisas que sejam um bocadinho nossas, não só pelo impacto que provoca em nós no presente, mas também pela repercussão no futuro. Por tudo o que dissemos, achamos que outros colegas nossos devem juntar a criatividade à vontade e, assim, fazerem parte deste jornal feito de "tantas boas mãos."

O CRESCER deseja as maiores felicidades a estas colaboradoras. Obrigado, Ana. Obrigado, Rita!

27/05/2016

as escolhas de...





Hoje, o rosto da escola que damos a conhecer é o de Leonilda Costa, docente de  Psicologia.


O CRESCER quis saber que balanço faz da sua carreira, como vive a sua ligação às origens, aos animais e à família.





Que balanço faz da sua carreira profissional?

O meu balanço de carreira profissional é muito positivo em relação a tudo: aos alunos, à escola, aos colegas, aos funcionários. Sempre tive o sonho de ser professora. Em criança, colocava as bonecas em fila e as minhas brincadeiras passavam por ensiná-las. A minha profissão sempre foi muito gratificante, pelo que não tenho momentos muito negativos. Vejo a reforma com um bocadinho de ansiedade, mas vou fazer quarenta anos de carreira, pelo que tem de ser. Outra coisa que torna a minha profissão gratificante são os meus alunos e o relacionamento que ainda hoje mantenho com alguns. Nós, professores, apreciamos muito os bons alunos e, quando havia exame, era muito compensador vê-los a ter bons resultados, mas os que não eram/são tão bons também merecem o meu carinho e a minha estima, porque, às vezes, esforçam-se e não conseguem ou, outras vezes, não se esforçam sequer porque são muito jovens e não têm sentido de responsabilidade. Ajudá-los a crescer é maravilhoso, porque eles são realmente a pedra basilar da minha carreira, aquilo que é muito importante para mim.

Que ligação tem às suas origens?
Lousada
Ermesinde
Eu nasci em Lousada, o meu marido também é de Lousada. Construímos uma casa lá, quando herdamos uns terrenos, pelo que passo lá parte dos feriados, fins de semana e afins. Talvez vá para lá mais tempo, quando me reformar. Levo para Lousada o meu cão e dedico-me também à terra, porque gosto muito de plantas e flores. Costumo dizer que sou um bocado como os sem terra, porque nasci numa e fui criada noutra, mantendo a ligação com as duas. Estou dividida. Também aqui, em Ermesinde, tenho as minhas raízes, família e amigos de infância que são praticamente irmãos, mas lá tenho irmãs e sobrinhos. Sinto-me repartida entre Lousada e Ermesinde.


Platão, o cão, e Julieta,
a gata adotada pelo Platão
O CRESCER conhece a sua paixão por animais...
Sempre tive uma paixão muito grande por animais e tenho tido, ao longo da minha vida, gatos, cães, tartarugas e passarinhos. Neste momento, tenho um cão, o meu Platão, uma gata que adotei e outra vadia que começou a andar pelo jardim e foi adotada pelo Platão. Acho que os animais nos trazem coisas novas constantemente. Têm comportamentos espetaculares. Às vezes, chegamos a casa, o marido está mal disposto, mas o cão está sempre a abanar a cauda e as gatas, mesmo a vadia, vêm-me esperar. Não consigo viver sem qualquer animal, aliás, às vezes penso “se morrer um dia, quem vai ficar com os meus animais?”. Gostava de ter outro tipo de espécies, como um burro ou uma cabrinha de estimação na aldeia, mas isso requer muito trabalho, tempo e força suficiente para cuidar deles, o que é difícil. Não consigo criar animais para matar. Já tive galinhas e patos, mas nunca coragem para matar nem comer. Acho que eles nos trazem coisas muito importantes, até para as crianças, daí que goste muito que o meu neto conviva com eles, é uma forma de desenvolver a afetividade e aprender que não são peluches, mas seres vivos que nós temos de respeitar e tratar bem.


O CRESCER também sabe do valor imenso que dá à família...
A família é realmente muito importante. Sempre fui muito ligada à minha. Tenho um casamento de quarenta anos, os meus filhos e agora uma alegria muito grande, o meu neto. Não o criei, mas vai visitar-nos e, apesar de não termos acreditado nisto quando nos diziam, fazem-se coisas com os netos que não se fizeram com os filhos. O meu marido era muito exigente com os filhos e não se jogava à bola dentro de casa, por exemplo. Agora, joga-se à bola na sala, anda-se de kart na sala, muita coisa. O meu neto é um miúdo fantástico, muito vivo, muito meigo e sempre muito alegre. Somos uma família a rejuvenescer graças a ele, o que é fabuloso. Depois do nascimento dos meus filhos, o nascimento do meu neto é o mais importante para mim. Nesta fase da vida em que parece que não temos muitas alegrias, surge assim uma lufada de ar fresco. Está tudo muito sossegado, entra o Bernardo e tudo fica diferente. É das melhores coisas!

Ana Pinto e Rita Almeida

13/05/2016

as escolhas de...




Hoje, o rosto da escola que damos a conhecer é o de Isabel Garção, docente de História.

O CRESCER quis saber a sua opinião sobre o futuro das gerações mais jovens, a sua ligação ao ensino profissional, o seu gosto pelas viagens e como chegou à docência da História.




Como vê o futuro das gerações mais jovens (o CRESCER leu o seu comentário feito na entrevista do professor António Leite)?
Há coisas que o António diz que eu acho que são inteiramente verdade, como a possibilidade que esta geração tem de sair do país e que a minha geração não teve (eu fui a primeira vez a Lisboa com dezoito anos). Esta oportunidade fornece-lhes horizontes muitíssimo mais vastos que os nossos, mas
não considero que as gerações mais jovens possam ser as mais felizes, porque têm dificuldade em obter um trabalho estável e não podem organizar a vida em termos de construir o seu cantinho e conseguir nele ficar, como a minha geração conseguiu. Apesar de tudo, a minha geração foi uma geração feliz. Eu, por exemplo, com vinte e poucos anos já tinha uma situação profissional vinculada com o Estado e pude organizar, de certa forma, a minha vida. Tinha a expectativa que com o passar dos anos estaria cada vez melhor financeiramente, algo que hoje não acontece com os jovens. As pessoas não sabem o que esperar, se vão ou não ter trabalho e, mesmo quando o têm, é, muitas vezes, precário. Não existe assistência médica e têm de fazer seguros de saúde. Não ganham nas férias. A minha nora, por exemplo, teve uma bebé e viu-se obrigada a ir trabalhar ao fim de relativamente pouco tempo porque não tinha os direitos que tem uma grávida com contrato. Portanto, é nessa perspetiva que eu não concordo com o António Leite. Acho que é a primeira vez na história que uma geração tem tão poucas expectativas de felicidade. A felicidade plena nunca se encontra, mas eu tive estabilidade, consegui organizar a minha vida familiar, ter a minha casa e ter esperança de que as coisas iam correr bem. Custa-me vê-los, sobretudo aqueles que trabalharam e se esforçaram, a não terem expectativas de fazer e mostrar aquilo que foi o seu trabalho e aprendizagem. É extremamente revoltante. Não tenho a mentalidade de admitir que tudo é provisório, aliás, se eu tivesse essa mentalidade, sofreria muito por estes jovens, pelo meu filho, pela minha nora, pela minha neta.

Pode falar um pouco da sua ligação ao Ensino Profissional?
Apesar de se ter uniformizado o ensino no 25 de abril, hoje repensamos e percebemos que também se cometeram erros, como extinguir o Ensino Técnico. Na verdade, se um aluno quer algo mais prático, porque não há de começar a trabalhar numa coisa mais vocacionada, através de um curso técnico e profissional?
Já trabalho há muitos anos no Ensino Profissional. Comecei numa escola profissional muito pequenina, ligada à Moda, da qual tenho as melhores recordações. Depois acabei por me voltar a ligar a este tipo de ensino quando abriu nesta escola, mas aqui é tudo muito diferente. Na escola onde comecei, conhecíamos os alunos todos, portanto a proximidade entre estes, os professores e a própria instituição era muito grande, o que não quer dizer que não houvesse problemas, porque havia. Eu gosto de estar no Ensino Profissional e acho que os que optam por este tipo de ensino têm de ter uma oportunidade e devemos prepará-los no sentido de perceberem o que é o mundo do trabalho. Tenho muitos casos no Curso Profissional de Turismo, ao que estou ligada, de sucesso mas também há casos de insucesso. Os casos de sucesso são aqueles que me dão mais gozo. São alunos que, apesar de não terem sido brilhantes, hoje trabalham em companhias de cruzeiros e em hotéis e até já deram a volta ao mundo. Outros enveredaram no ensino superior e estão a seguir carreiras de técnicos superiores nesta mesma área. São eles que tornam o trabalho prazeiroso e tenho muito gosto em seguir os seus percursos. O que considero dever ressalvar é que quando vêm para o ensino profissional não devem vir para passear mas para trabalhar, porque o mundo profissional é exigentíssimo e o choque é enorme. Eles têm uma carga horária muito pesada, não levam, portanto, trabalhos para casa mas a sala de aula tem de ser um espaço de trabalho, pelo que nós, professores, lhes fornecemos muitos materiais para que possam nela trabalhar. Inclusivamente, esses alunos têm um privilégio enorme: têm um financiamento, dado pelo Fundo Social Europeu e pelo próprio Estado português, tal que não pagam livros, nem visitas de estudo, nem alimentação e têm subsídios de alimentação e transporte quando vão fazer estágios, ou seja, têm uma série de benefícios. E revolta-me, mesmo muito, que pessoas que têm esses apoios brinquem e gozem com quem quer trabalhar. Fico completamente triste e desanimada. Chego muitas vezes a pensar que esses alunos deviam indemnizar o Estado pelo facto de ter sido feito um investimento que não aproveitaram. Tira-me do sério ver pessoas com competências recusarem trabalhar. O que é facto é que os alunos que têm dificuldades têm muito apoio. Eu faço mais fichas, sento-me à beira deles e ajudo-os até conseguirem fazer o que lhes é solicitado autonomamente. Apesar de terem mais dificuldades a chegar lá, chegam, porque têm realmente vontade. 

O CRESCER sabe do seu gosto por viagens...
Quando eu entrei na faculdade, arranjei emprego numa agência de viagens e trabalhei a acompanhar grupos. Foi uma oportunidade fantástica. Acompanhei turistas em muitas viagens, sobretudo pela Europa. E abriu-se-me este mundo. Depois, quando casei com o César, fomos dois a querer conhecer mundo. Não tínhamos possibilidades económicas de o fazer através de agências e, portanto, começamos a viajar autonomamente. Ganhamos esse gosto e é realmente uma oportunidade extraordinária.



Costumo dizer que gosto de vir cansada das viagens e ninguém me diga que as viagens são para descansar. São, aliás, para ficarmos muito cansados e fazermos, depois, férias das viagens. Nós, efetivamente, queremos conhecer o mundo para onde vamos e, então, caminhamos, caminhamos e caminhamos. Sacrificamo-nos, em termos monetários, por causa dos custos controlados, pelo que se cozinha qualquer coisa para comer, dorme-se, muitas vezes, em piores condições do que aquelas que temos em casa, mas, como se pretende conhecer, não faz mal. Eu falo muito mal inglês e gosto muito de ir para países onde consigo conversar com as pessoas, algo que acho essencial, porque se formos ver os países só pelos olhos do turista, não ficamos a conhecer verdadeiramente o sítio. Temos de conseguir estabelecer contacto com as pessoas, conseguir conversar com elas, conseguir que nos contem as suas histórias e, às tantas, até partilhar algumas das nossas.
Há uma viagem que me marcou particularmente. Eu gosto muito da América do Sul por causa do castelhano e adorei a Bolívia, onde fui quase por acidente. É duma autenticidade pura. É um país que ainda não tem o turismo muito desenvolvido e, como tal, ainda não é escravo do turista nem do turismo. As pessoas funcionam ainda sem estar com a preocupação de agradar ao turista. Então, são genuínas. 

 Como se deu a sua escolha pelo curso de História?

Eu queria seguir Artes e não História. O meu pai era escultor e vivi desde pequena muito ligada às artes. Acompanhava-o à escola onde era professor e lembro-me, por exemplo, de ir com ele às aulas do curso de formação feminina e ver os trabalhos maravilhosos que as alunas faziam. O meu pai gostava muito de música, de literatura, de cinema, de modo que eu fui muito habituada a lidar com a arte. Porém, quando era estudante e cheguei ao quinto ano de liceu, queria ir para a escola Soares dos Reis e a minha mãe não me deixou porque achou que o ensino técnico e profissional não era para uma menina e obrigou-me a continuar no liceu até ao fim do secundário. Como não era boa aluna na área das ciências e não havia área de artes no liceu, segui uma que tinha mais que ver com Ciências Sociais e Humanas e acabei por ir para História por isso. Um bocado por acidente. Se fosse hoje, eu acho que não ia, porque me angustia muito o facto de o Homem não aprender com os erros. Agora, espera-me a reforma e a hipótese de um dia fazer algumas coisinhas manuais, talvez numa universidade sénior. 

Ana Pinto e Rita Almeida

06/05/2016

as escolhas de...

O CRESCER regressa à rubrica "as escolhas de..." à sexta-feira. 





Hoje, o rosto da escola que damos a conhecer é o de António Leite, docente de Geografia.

O CRESCER quis conhecer o seu gosto por viagens, o que pensa do atual sistema educativo e o que espera das gerações futuras.




Fale-nos um pouco das suas viagens...
Viajo muito, não fosse eu de Geografia. No entanto, há um mito que tenho de desconstruir: não há viagens que marcam e que não marcam, todas marcam por diversos motivos. Isto porque são feitas a sítios diferentes, em idades diferentes e até em momentos diferentes da nossa vida. Uma viagem é sempre uma descoberta, mesmo quando se viaja para um sítio por nós já visitado. As sensações são sempre desiguais porque vemos coisas diferentes e, como tal, percecionamos a realidade de forma também diferente. Há, realmente, sítios que pela própria diferença cultural marcam sempre mais, como a Índia.
rio Ganges
Digo muitas vezes, em tom de brincadeira, que gostaria de levar os meus alunos para lá e, assim, deixavam-se de queixar de muita coisa. De facto, uma viagem à Índia marca indescritivelmente. Já tinha mais de quarenta anos quando lá fui e acho que, mesmo assim, não estava preparado para fazer essa viagem, de tal modo que nunca mais consegui voltar, nem sei se voltarei. 
praga de gafanhotos
Vemos documentários, mas a televisão, tal como a fotografia, são artes incompletas. Falta-lhes o cheiro, a cor, a sensação… A Índia é sufocante e a miséria tem um cheiro que não sei bem explicar, é como se cheirasse a caril e até as cores fantásticas são sujas. Ninguém vem da Índia indiferente. A viagem é sempre algo que é muito partilhado. Costumo viajar com a minha filha mais velha e, na altura, não a levei e arrependi-me imenso porque, apesar de ela não estar preparada, acho que lhe neguei algo que seria uma lição fantástica. Há destinos no mundo que são verdadeiras gaiolas douradas. Entra-se lá e somos príncipes que comem tudo e fazem tudo, mas, depois, pomos um pé fora da gaiola e a realidade é completamente diferente. Na Índia basta pôr um pé de fora e tudo corre mal, vê-se a realidade.
Para além disto, como geógrafo, vi tudo o que queria ver. Nunca tinha visto, por exemplo, uma praga de gafanhotos até então. Elejo, sem dúvida, a Índia por tudo de belo que tem e pela outra face da moeda que só estando lá se consegue ver. Mas o confronto é muito violento.

O que pensa do atual sistema educativo?
O sistema educativo e nós, professores, tentamos cumprir os programas, as matérias, os exames e tudo está muito definido, o que é legítimo e tem o seu valor, mas eu acho que a Escola tem de acrescentar um bocadinho mais que isso. Os professores são muito conformados (vão odiar-me!), estão muito preocupados com a matéria que falta dar, mas os alunos não vão reter muito do que aprenderam. A Escola tem de ser um bocado provocatória e, às vezes, tento, na medida do possível, mostrar que o rei vai nu, isto é, que há mais para além disto. A Escola tem de fazer pensar os alunos. Digo aos meus alunos, muitas vezes a brincar, que não estou aqui para ensinar nada, mas para criar dúvidas, algo que eles vêm a perceber, geralmente, mais tarde. É preciso desconstruir para que o ensino não se torne uma doutrina. Aliás, que margem de liberdade criativa tem um aluno? E que liberdade tem para se questionar? Acho, por exemplo, que os alunos de Humanidades deviam ter uma disciplina de Ciências e vice versa, para que se completassem enquanto cidadãos no sentido em que talvez falte aos primeiros um espaço de racionalidade e aos outros um espaço de autonomia criativa.
Eu sou provocador com os meus alunos do 12º ano porque tenho liberdade, até crítica, de o ser. Mas no 11º ano tenho de ser diferente, porque os meninos têm de tirar boas notas. Eu sou livre quando posso ser, aliás, todos nós somos livres quando podemos ser, até porque não queremos prejudicar o sucesso escolar dos nossos alunos, que é fundamental.

 O que espera das gerações que leciona? 
Não há mais diferença entre a minha geração e a geração dos alunos que leciono e a minha e a dos meus pais, portanto, os alunos não são a geração terrible. Na verdade, até é saudável que haja conflito geracional. Há, no entanto, um problema grave, culpa nossa que protegemos demasiado: os alunos, não todos, com certeza, ainda não aprenderam a lidar com a frustração, daí que tenham uma consciência do mundo muito soft. Serão, claramente, uma geração mais qualificada, mais descontraída, com menos preconceitos e mais espaços de liberdade, coisas que até se podem confundir, às vezes, com um certo egoísmo. Mas, objetivamente, fazem menos juízos de valor, são muito mais abertos à mudança, têm um domínio tecnológico brutal, vão querer viver de maneira diferente. A minha geração comprou casa e mobília, eles vão alugar, vão ao IKEA, vão querer viajar mais porque Londres "é já ali" e o mundo é grande e vão-se preocupar muito menos, talvez nem tentem amealhar, como nós, que quisemos comprar casa e mudar as cortinas. Acho que eles hão de ser muito mais felizes.
Apesar destas grandes virtudes, não são muito politizados, no sentido em que não abraçam causas. Daí que ache que tenham pouco conhecimento do mundo real e diário. A Escola falhou, mas também deu outra parte muito importante. No entanto, é preciso que os alunos recebam abanões (coisa que os alunos dos cursos profissionais têm, uma vez que sentem um cheirinho da vida fora do mundo escolar). 
Os conflitos geracionais existem desde que há mundo e são muito bons e, na verdade, esta geração vai ser mais livre, mais capaz e mais feliz, desde que não tente copiar o modelo da anterior.

Ana Pinto e Rita Almeida

15/04/2016

as escolhas de...

O CRESCER regressa à rubrica "as escolhas de..." à sexta-feira. 


Hoje, o rosto da escola que damos a conhecer é o do senhor Manuel Neto, funcionário que todos conhecem da portaria, que a todos saúda com o seu amável "Bom dia!".

O CRESCER quis saber as suas origens, qual o seu percurso profissional e os seus passatempos.




Quais as suas origens e qual o significado de família?
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Eu sou natural de Lousada, vim para a Maia com dois anos e aqui vivo há cinquenta. Gosto muito de cá estar. Em Lousada tenho familiares maternos com os quais fui perdendo ligação, enquanto na Maia tenho familiares paternos. Considero-me, realmente, um maiato, apesar de não ter nascido aqui. Para mim, a família tem um grande significado. Somos, ao todo, dez irmãos e somos muito amigos. Os meus pais tiveram um grande impacto na minha vida. Deram-me uma educação da qual estou muito grato, ensinaram-me a ser o que sou.


Fale-nos um pouco do seu percurso profissional.
Já ocupei três cargos profissionais diferentes. Trabalhei num escritório durante dezoito anos, mas, entretanto, a empresa fechou e fui para o desemprego. Tive de arranjar outra atividade e fui trabalhar para a metalomecânica, onde estive mais quinze anos, mas a empresa fechou, também, e vim parar aqui. O primeiro emprego marcou-me muito, mas gostei mais de trabalhar na metalomecânica. Era soldador de condutas de gás e água e não trabalhava num sítio certo. Gosto muito de conduzir, principalmente, de noite, e este ofício permitia-me isso. Havia dias em que fazia trezentos quilómetros e outros em que trabalhava vinte e quatro horas. Apesar de gostar do que fazia, estava longe de casa.
Agora, nesta nova oportunidade, gosto muito de trabalhar aqui na escola, caso contrário, não teria concorrido. Agrada-me o convívio com os alunos e os professores. Há aqui alunos espetaculares e, apesar de dizerem que fazem “trinta por uma linha”, nunca tive problemas com eles. Interajo muito com todos e também com os mais pequenos, que até se sentem muito à vontade comigo. Trabalho cá há quatro anos e faço o que me compete com muito prazer. Para além disso, faço muitas coisas: sou picheleiro, serralheiro, carpinteiro, lixeiro e muito mais. A verdade é que, nos dias de hoje, as pessoas têm de ser polivalentes.

E o que gosta de fazer nos seus tempos livres?
Eu caminho muito, cerca de uma hora e meia todos os dias. Costumo caminhar com a minha mulher e, quando a minha filha está, vamos os três. Gosto muito de passear com o resto da família, também. Gosto igualmente de ir à praia, porque me sinto bem ao pé do mar e, tendo uma filha que também adora, ainda melhor. Para além disto, vejo muita televisão, mas só desporto. Gosto de todos os tipos mas, principalmente, de ténis.

Ana Pinto e Rita Almeida


04/03/2016

as escolhas de...

Às sextas-feiras, o CRESCER anda por aí a fazer perguntas para podermos ficar a conhecer melhor alguns rostos da escola.




Desta vez, quisemos saber quais as personalidades que o inspiram, o gosto pelo cinema e qual o significado que atribui à arte.


As escolhas de Paulo Rocha, docente de Desenho e Artes Visuais.
Há heróis/personalidades marcantes na sua vida?
Tenho uma extensa lista de heróis, o que torna dificílimo escolher um ou até definir um top 10.

A nível livresco, interesso-me tanto pela literatura como pela imagem. Gosto bastante de banda desenhada, tendo sido criados, nesta área, montes de heróis que me marcaram imenso. Na escrita, destaco também Fernando Pessoa e Alexandre O’ Neill, dois poetas que inquietaram a minha alma. Também com esta conotação, escolho o escritor H.P. Lovecraft, que escrevia contos de terror e os vendia a preços baixos, não tendo, portanto, muito lucro. Trouxe o estilo gótico à literatura, tendo encarnado que nem uma luva essa onda.
Cruzeiro Seixas
Dentro da minha área, admiro muito um artista português, entre muitos outros, o Cruzeiro Seixas. Apesar de não ser conhecidíssimo como outros artistas, marcou-me através das suas obras, tendo influenciado a minha própria arte. Este e outros artistas, como o Leonardo Da Vinci, marcaram-me tanto a nível intelectual como a nível artístico, ocupando uma papel importantíssimo na minha vida e trabalho. Sou fã dele desde os meus treze anos, tendo sido um escritor que me agitou realmente, tendo influenciado o meu processo artístico. Foi o interesse dos fãs dessa corrente que o puseram no mapa, tendo passado de um ilustre desconhecido a célebre conhecido.
A nível profissional, escolho o chefe da nossa escola, premiado há uma semana, sendo uma pessoa que respeito e aprecio. O lugar de diretor de uma escola exige muito altruísmo e dedicação. Exercer este cargo só mesmo por "amor à camisola", sendo uma das razões que me fazem admirar tanto o nosso professor Ferreira.

 Tem referências na área do cinema?

Na área do Cinema, escolho O Nome da Rosa, baseado num romance do recém falecido Umberto Eco, um escritor intelectual e bastante inteligente. Tendo a consciência de que se escrevesse um livro intelectual este não venderia, optou por escrever um magnífico romance histórico que captou a atenção do mundo. Este romance relata, então, uma história passada durante a Idade Média, na qual o riso era considerado, pela Igreja, pecado. Enquanto tratado histórico, leva-nos para um mistério policial que envolve um convento medieval. É realmente uma história muito bem fundamentada e bastante interessante, assemelhando-se a uma aula de História sobre a Idade Média (por sinal, uma das melhores aulas de História que já tive). Para além disto, esta obra literária tornou possível consagrar algo raro: pegar num bom livro e fazer um filme à sua medida. Umberto Eco conseguiu, realmente, tornar a academia e o conhecimento em algo interessante e apaixonante.  Vale realmente a pena ler o livro e ver o filme. 

Gosto, também, dos filmes do Hitchcock, um cineasta que adora pôr as pessoas nervosas e cheias de medo até ao fim. Lembro-me de uma vez ter visto o The Birds e a minha irmã, que é muito sensível, ter saído de lá cheia de medo de pássaros.

Qual é o significado que atribui à arte?
Eu já nasci artista. Na minha fotografia mais antiga, estou ainda de fralda e com uma caneta na mão, quando ainda não andava  – entre meses e um ano de idade –, já tinha pintado a minha casa toda  até onde eu chegava com a caneta. A partir daí nunca mais parei. O que me levou para o mundo da arte foi, em grande parte, a banda desenhada. Considero-a até melhor do que o cinema, uma vez que fica mais barato e é, de certo modo, mais imediato. Se quisermos criar a cena de um avião a explodir, desenhamos. Num filme, temos de pagar e utilizar equipamento.
Ser professor, para mim, é uma espécie de ginástica que não deixa morrer o pintor e artista que tenho dentro de mim. Ensino o que gosto de fazer aos outros e ajudo-os a tornar fácil o que lhes soa complicado. Quando era mais novo tinha energia para contagiar qualquer aluno, mesmo aqueles que entravam a dizer que o diabo é arte. Agora, já são mais de trinta e cinco anos de aulas e já não tenho tanta energia e paciência. Daí que o ensino obrigatório me incomode um bocado, pois muitos dos alunos só vêm às aulas para não ter falta, o que acaba por não permitir que os que querem realmente aprender consigam aproveitar plenamente a oportunidade e aprofundar o seu lado artístico.
 exemplo da técnica
daqui
A arte, hoje, é muito a expressão da subjetividade do artista, isto é, é bastante intelectual e concetual. Antes existiam correntes e grupos que as concretizavam; agora, um artista é simplesmente alguém e a sua obra é um conceito subjetivo criado pelo artista. Podemos ser artistas sem sabermos desenhar e até sermos os melhores artistas da atualidade. Temos o exemplo da Joana Vasconcelos. É só preciso a ideia porque o resto surge em função disso, feito pelo artista ou não. Ainda dou, porém, muito valor ao trabalho manual, ao virtuosismo de levar a técnica a um ponto que não é atingido por qualquer um. A arte é, realmente, a minha paixão e, como tal, estou sempre ativo. Faço exposições e os meus quadros são mágicos: pinto-os com tintas que têm fluor que, quando refletida uma luz especial, no escuro, permitem visualizar as obras. Foi neste âmbito que realizei, há alguns anos, uma exposição na nossa escola.  
Ana Pinto e Rita Almeida

19/02/2016

as escolhas de...

Às sextas-feiras, o CRESCER anda por aí a fazer perguntas para podermos ficar a conhecer melhor alguns rostos da escola.




Desta vez, pedimos a sugestão de um livro, de uma música e de um passatempo.

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As escolhas de Aurélia Dias, docente de Inglês.







Um livro
Um livro que me apaixonou profundamente foi o Eat, Pray, Love (gosto de ler as versões originais) da escritora Elizabeth Gilbent. Não conseguia parar de lê-lo, devorava as páginas e na altura não entendia o porquê de tal fascínio. Posteriormente, interpretei o seu significado: eu iria vivenciar as mesmas situações vividas pela personagem, Liz. Uma das palavras-chave deste livro é attraversiasmo e tal como disse, eu “atravessei” um percurso idêntico ao de Liz e hoje sou uma mulher renovada: o “casulo” escuro e estagnado em que me encontrei durante muitos anos permitiu transformar-se em “borboleta” e aceitar o direito a reaprender a viver a vida em contínuo reencontro com Deus, comigo mesma, com o amor e com a liberdade. São conquistas como estas que me permitem ser eu própria e agir em função disso, como aconteceu, por exemplo, na gala dos 40 anos da nossa escola.

Uma música

Gosto de quase todo o tipo de música, especialmente, a que der para “saçaricar” e divertir. De qualquer maneira, há uma que ainda hoje está registada na memória: Without you de Harry Nilsson.  Eu era adolescente, no início dos anos 70, na época das festas de garagem das amigas e dos slows. Esta canção passava sempre nessas festas, várias vezes até (era o tempo dos LPs ou singles em vinil, que agora são quase peças de museu). Éramos adolescentes e estávamos a despertar para o romance, para o contacto físico e, como tal, ir a essas festinhas era o máximo que os meus pais me permitiam. Daí as lembranças desta música.

Passatempos/ gostos
Aproveito o tempo disponível que tenho para fazer o que realmente gosto: ir até Lavadores (a minha praia de infância), ler e dançar. Depois de ter passado por vários tipos de aulas de dança, estou integrada num grupo de aulas de Biodança desde novembro e, como gostei tanto da experiência, inscrevi-me na Escola de Biodança do Porto. Temos um fim de semana por mês chamado “Maratona da Dança”, que é sempre dedicado a uma temática específica. Nestes momentos, há uma primeira parte teórica e, de seguida, dançamos a “dança da vida”. É muito complicado explicar o que é a Biodança, uma vez que é algo maravilhoso. Tem um caráter bastante catártico, o que me ajuda cada vez mais a alcançar um estado interior melhor. Integra todas as partes do nosso corpo e tem-me permitido viver o presente na sua plenitude, deixando de lado o foco que tinha em equacionar o passado ou o futuro. Todas estas experiências que partilhei, entre outras, permitem-me afirmar, sem dúvida, que sou hoje uma mulher e um ser humano melhor e mais feliz do que era há vinte anos. 
Ana Pinto e Rita Almeida

12/02/2016

as escolhas de...

Às sextas-feiras, o CRESCER anda por aí a fazer perguntas para podermos ficar a conhecer melhor alguns rostos da escola.


Desta vez, quisemos saber os hobbies, a importância que dá à família, um lugar especial e uma personalidade de referência.

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As escolhas de Carla Avelino, auxiliar de ação educativa.






O CRESCER conhece alguns dos seus hobbies. Pedimos-lhe que faça essa partilha com os leitores.
Gosto de fazer trabalhos manuais, de caminhar na praia e de ler, principalmente, histórias verídicas. Gostei de ler, particularmente, o livro Quando Acontecem Coisas Más àsPessoas Boas de Harold S. Kushner, que retrata um rabino norte-americano que perde um filho e tenta procurar uma justificação para o facto de tal ter acontecido. Para além deste, há outro livro que me marcou, Vendidas de Zana Muhsenx, que fala sobre umas meninas que foram enganadas pelo pai. Pensando que iam realizar uma viagem de férias, acabaram por ser vendidas pelo mesmo e sujeitas a casamentos precoces, violações e outro tipo de crueldades. Também gosto de estar e brincar com os meus sobrinhos e de conviver com a minha família, que é muito importante para mim.  

O CRESCER também sabe da importância que dá à família. Pode falar-nos um pouco sobre isso?
A família para mim representa o esteio. Sou solteira e vivo com os meus pais, que são essenciais para mim. Passei por uma fase em que ponderei viver sozinha, mas pensei e apercebi-me que entraria dentro de uma casa e tudo aquilo seriam apenas quatro paredes, uma vez que não teria ninguém com quem conversar e rir, coisas que gosto de fazer. Essa decisão talvez se tenha devido ao facto de ter sido habituada a uma família muito grande e também ao facto de o meu pai ser uma pessoa muito bem disposta, sempre bastante alegre, e, portanto, para mim a família é a base e não conseguiria viver sem ela. Infelizmente, o meu pai está internado e digo muitas vezes que se ele for embora, perco o chão. Não casei, não tive filhos e, portanto, a família que tenho representa muito para mim. A família é aquilo que me move.

E tem um lugar que ame particularmente, um seu "cantinho"?

Há uma terra que eu adoro, Foz do Arelho, em Caldas da Rainha. Gosto de muito de passar férias lá. Não se pode bem considerar uma aldeia, mas é um sítio muito calmo, que tem gente, mas não confusão. É o local em si: tem o mar e o sossego, que tanto prezo. Considero ser um lugar, como vulgarmente digo, “porreiro”. Gosto mais de sítios calmos e perto do mar ou do rio, embora não goste de praia. 
Por outro lado, também aprecio Penafiel, onde passa o rio Douro e onde tenho também família. Sinto-me ligada à natureza e até costumo dizer que, se me saísse o Euromilhões, compraria uma casa numa encosta do rio Douro. Gosto de estar em locais onde não esteja muita gente. Embora fale muito alto, gosto muito do sossego e do meu cantinho. Por vezes, embora adore a minha família, sinto necessidade de estar sozinha e quieta e estes locais são bons para descontrair, sozinha ou acompanhada.

Por fim, pedimos-lhe que nos fale de alguém que tenha como referência.
O meu pai. Gosto muito dele, nem dá para explicar. É uma pessoa muito alegre e faz-me falta. Sinto por ele muita admiração. Costumo dizer que se morresse e voltasse a nascer, gostava de ter os pais que tenho, mas principalmente o meu pai. Quem o conhece, sabe que é uma pessoa muito brincalhona, alegre e simpática. Agora que ele está internado, eu chego a casa e falta-me conversar com ele sobre o dia que teve, falta-me ouvi-lo chamar-me “cachopa”. Faz-me simplesmente falta. Admiro-o, também, pelo percurso que fez e pelas dificuldades que conseguiu superar. O meu pai nasceu numa família muito rica, mas começou do nada e chegou até ao que tem. A vida não era fácil, eu própria comecei a trabalhar com onze anos e só mais tarde é que as coisas começaram a melhorar, mas nem por isso ele desistiu: conseguiu ter a sua casa, os seus carros, a sua caravana (que tanto queria!) para passear e fazer campismo. Conseguiu, sobretudo, alcançar muitas coisas que idealizou. Lutou sempre para chegar a algum lado e viu a vida sempre com positivismo, mesmo nos momentos mais tristes. E era assim que eu gostava que ele visse a situação em que se encontra, que não fosse abaixo. Admiro-o muito por toda a sua força. 
Ana Pinto e Rita Almeida

05/02/2016

as escolhas de...

Às sextas-feiras, o CRESCER anda por aí a fazer perguntas para podermos ficar a conhecer melhor alguns rostos da escola.


Desta vez, quisemos saber o que lê, que lugar sugere para viajar e como é a sua relação com os animais.




As escolhas de Alda Ramos, docente de Geografia.





O CRESCER sabe do seu gosto pela leitura. Pedimos-lhe uma sugestão de leitura e o porquê.

Sempre  fui muito incentivada pelo meu pai para a leitura. Ele era professor primário aqui em Águas Santas, na Escola Masculina do Paço e Delegado Escolar da Maia. Este serviço funcionava na antiga Câmara Municipal  e ao lado do gabinete dele havia uma pequena biblioteca de onde me trazia todas as semanas um livro. Foi assim que, desde pequena, me habituei a ler ao deitar. Ultimamente tenho andado a ler dois livros ao mesmo tempo (dizem que é bom para o cérebro - daí a experiência): "As lágrimas da princesa" de Mª João Fialho Gouveia onde relata a vida da Duquesa de Parma , filha do exilado rei D. Miguel e "O estranho caso de Sebastião Moncada", que também é um romance histórico. Resolvi  juntar os dois porque estão relacionados com as guerras liberais. Aconselho qualquer um, se calhar o primeiro que tem uma leitura mais "light", para quem gostar do género.

O CRESCER também sabe que gosta de viajar e que, por razões de ordem sentimental, guarda Londres num cantinho especial do seu coração. Verdade?

Londres
Gosto de viajar e tenho pena de não fazer mais viagens do que as que faço. Viajar é libertador e permite obter conhecimentos fantásticos das pessoas, dos locais e das culturas como não é possível através dos livros e, sendo professora de Geografia, todos estes aspetos me interessam, muito particularmente as diferentes paisagens que me apaixonam mais do que nada. Londres não será a cidade que mais gosto, mas é aquela a que, no momento, estou mais ligada afetivamente. Lá vive a minha filha que, como a grande maioria dos enfermeiros portugueses, teve que se deslocar para lá para poder trabalhar. Por isso, sempre que me falam em viagens, a minha primeira ideia é Londres, de que estou a aprender a gostar.
Capadoccia

Mas adorei uma viagem que fiz à Turquia. População afável, boa gastronomia e tanto, tanto para ver:  as chaminés de fada da Capadoccia, os castelos de algodão de Pamukkale com as ruínas de Hierapolis, o Bósforo com os lados europeu e asiático, a rota da seda, os mercados das especiarias, o grande Bazar, etc, etc. Recomendo vivamente.



O CRESCER sabe ainda do seu apreço pelos animais, em particular pelos cães (que teve e tem). Pode falar-nos um pouco dessa relação e de um episódio menos feliz por que passou na altura do Natal?

Os animais são companhias únicas. Os cães são fiéis amigos e sempre tive oportunidade de ter e privar com eles. Até ao Natal, tinha a viver cá em casa dois cães, a Janis e o Lucky, de 12 e 3 anos, respetivamente, até que decidiram "arejar", aproveitando um buraco numa vedação arbustiva. Só  ao fim da tarde, ao chegarmos a casa e ao verificarmos que nenhum aparecia, como sempre faziam, deduzimos que novamente nos tinham "fintado", como já tinham feito outras vezes. Procuramos por todo os lugares do costume, mas nada. Só por volta das onze horas da noite, e sempre em busca, um agente da polícia nos telefonou a informar que os tinha encontrado na Via Norte. Ele praticamente morto (teve que ser abatido), porque deve ter sido atropelado e ela, à beira do amigo, a guardá-lo. Só que quando tentaram apanhá-la, ela fugiu. 
Misha
Foi uma noite de angústia. Um morto e a outra sem sabermos por onde andava!... 
Coloquei um post no Facebook (5.600 partilhas) e resultou, pois  estava na escola e a minha filha telefonou de Inglaterra a dizer que a Janis tinha sido encontrada no Norteshopping e que lhe tinham ligado (eu tinha o telemóvel desligado por causa das aulas), porque através desta rede social tinham tomado conhecimento e reconheceram-na. Imaginam a nossa alegria, não?  Pelo menos ainda tínhamos a nossa velhinha.
Apesar desta experiência menos boa, tenho agora um novo cachorro, o Misha, adotado, que faz as delícias de toda a família, principalmente do meu neto que julga que é um peluche vivo.

Ana Pinto e Rita Almeida