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sexta-feira, 6 de março de 2026

"Grito da Noite", Marisa Barradas

GRITO DA NOITE 

"O Grito", Edvard Munch
pintor norueguês

O grito não tem dogma.
Não se curva.
Não se explica.
O grito nasce onde a palavra falha —
no abismo da alma.
É sede.
É urgência.
É o coração a bater contra as grades do próprio peito.
Ecoa no horizonte como trovão sem céu,
sobe a escada invisível da montanha da dor,
rasga o vento com a fúria de quem se recusa a desaparecer.
O grito pode ser alegria —
um clarão brutal por te ter.
Mas pode ser também o choro que ninguém vê,
a ausência que me atravessa como lâmina,
a saudade que grava o teu nome
no meu silêncio.
O grito é desejo em combustão.
É luxúria que incendeia o corpo.
É febre que não pede perdão.
Carrega pinceladas violentas de coragem,
traços firmes de fé,
como um quadro pintado às cegas
no escuro absoluto da noite.
Ó grito —
meu companheiro feroz!
Quando o cansaço deforma o meu corpo
e o mundo pesa como pedra nos ombros,
és tu que me manténs desperta.
Não me deixas cair.
Não me deixas esquecer.
Não me deixas morrer por dentro.
Tu não queres silêncio.
Queres eco.
Queres infinito.
E se a noite tentar sufocar-me,
se a escuridão me fechar as portas,
eu gritarei até que o universo me reconheça.
Porque o grito que vem da alma
não é ruído —
é identidade.
E na noite mais profunda,
quando tudo parece ruir,
o meu grito não é desespero.
É prova.
Prova de que estou viva.
Prova de que amo.
Prova de que resisto.
E enquanto houver noite,
haverá voz.
E enquanto houver voz,
haverá luz. 

Marisa Pires Barradas, 
(assistente operacional da AESAS) 
26/02/2026

1 comentário:

Marisa disse...

Estou radiante e grata ao Jornal Crescer por esta oportunidade. Gratidão .Desejo bom sucesso a todos níveis