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17/03/2020

Imagine

"Imagine um mundo em que quase um terço das emissões de CO2 lançadas diariamente para a atmosfera desapareceu de um dia para o outro: os céus da China limpos da queima insaciável de combustíveis fósseis, a que se junta a redução acrescentada pela queda brutal das viagens de avião e da circulação dos imensos paquetes de passageiros, outrora um sinal de festa e hoje a nova praga das cidades costeiras. 

Imagine Veneza, Florença, Paris, São Petersburgo, Istambul desertas de multidões de chineses, coreanos, russos; museus onde se pode entrar e percorrer as salas: cafés onde se pode estar sentado; praças para onde se pode olhar. 

Imagine uma quantidade de gente com mais tempo para si, para a família, para os amigos, com menos pressa para tudo. 

Imagine gente a trabalhar a partir de casa, produzindo o mesmo e gerindo o seu próprio tempo de trabalho, gastando menos, poluindo menos, aliviando o trânsito. 

Imagine que de repente desapareceu a febre do consumismo supérfluo e que as pessoas se põem a pensar nas coisas que são verdadeiramente importantes. 

Imagine que um medo e uma apreensão global faz com que a necessidade de se andar informado faça as pessoas afastarem-se dos pântanos de intrigas e mentiras das redes sociais e regressem à informação de referência, onde está o serviço público de que necessitam. 

E imagine que, apesar do medo e da apreensão, porque somos seres humanos, somos desafiados a enfrentá-lo, a resistir-lhe e a combatê-lo, contra o egoísmo, o alarmismo e a irracionalidade alarve das massas, e a portarmo-nos como seres humanos. 

Isto, esta utopia, está a acontecer agora. Sob os nossos olhos e graças ao coronavírus. A forma como nos comportarmos vai ser tão importante, em termos de reflexão, como vai ser, em termos científicos, a forma como o vírus for vencido. Mas, até lá, esta pausa, esta suspensão do mundo tal como o conhecemos, já é um excelente tema de reflexão.

Claro que não é sequer pensável suster o mundo, como agora está forçadamente, de forma permanente. A mudança teria de ser feita de forma gradual, global e planeada. Mas também não é possível continuar a assentar um futuro sustentável numa fórmula que se traduz em mais, mais e sempre mais, de tudo: mais população, mais queima de resíduos fósseis, mais emissões poluentes, mais contaminação dos oceanos, mais desflorestação, mais incêndios, mais aviões nos céus, mais turismo de massas, mais agricultura intensiva, mais cidades megalómanas. 

Sabemos que temos de viver de outra maneira, mas não queremos ou não acreditamos que seja possível. E porque não o será?" 

Miguel Sousa Tavares

12/03/2020

Cuidem-se. É o dever de cada um.

 O CRESCER partilha uma crónica de Bárbara Wong, pelo sentido pertinente e atual das suas palavras.  
      

Meninos, isto não são umas férias 

     “Medidas de contenção” não incluem combinar uma saída com os amigos, uma ida à praia, ao cinema ou a um concerto. de Bárbara Wong



       Segunda-feira à noite: a Universidade de Lisboa envia um comunicado à comunidade escolar, informando que as aulas presenciais estão suspensas. Terça-feira à noite: o jardim do Arco do Cego, perto do Instituto Superior Técnico, está cheio dos habituais convivas que partilham cervejas e gargalhadas. Quarta-feira de manhã: as praias da linha de Cascais estão cheias de jovens, muitos estudantes universitários, das diversas escolas pertencentes à Universidade de Lisboa, já que as outras instituições da capital (ISCTE e Nova) ainda não se decidiram pelo cancelamento das aulas.
      Meninos — embora adultos têm de ser assim tratados dado o nível de irresponsabilidade —, a suspensão das aulas presenciais não é sinónimo de férias, mas de contenção, de cuidado. Afinal, o coronavírus não anda apenas pelos corredores da faculdade ou dentro da sala daquele professor mais palavroso, pode apanhar-se em qualquer sítio. Por isso, também não vale tentar combinar fazer os trabalhos de grupo na esplanada, por alguma razão a biblioteca da escola foi encerrada. O problema é que este é um vírus diferente porque, durante o seu período de incubação, ou seja, quase duas semanas sem sintomas, podemos transmiti-lo a outras pessoas.
      E se não querem levar um raspanete, ao menos, leiam as parangonas, vejam as imagens que chegam de Itália. Também muitos italianos decidiram que a covid-19 era uma óptima oportunidade para ir às compras, passear, pôr as conversas em dia e agora é ver as cidades completamente vazias, com gente confinada às suas casas, sem poder sair, com medo do vírus contagioso. É disso que se trata, de um vírus contagioso. Segundo o professor Manuel Carmo Gomes: “A teoria matemática da epidemiologia de doenças transmissíveis prevê que um vírus com as características daquele que provoca covid-19 tem potencial para infectar pelo menos 80% da população mundial (!). A velocidade com que o fará depende de nós e das medidas de contenção que adoptarmos.”
      Portanto, “medidas de contenção” não incluem combinar uma saída com os amigos, uma ida à praia, ao cinema ou a um concerto — aliás, a maior parte das salas de teatro e museus estão fechados e os concertos estão a ser adiados. E não é para vos aborrecer, é mesmo porque é necessário. O “distanciamento social” de que fala o Governo não é porque, de repente, ficamos pudicos ou moralistas, mas porque se transmite nos beijos e “dá cá mais cinco” — daí a importância de lavar as mãos, por exemplo. Isto é uma pandemia, não é uma brincadeira.
      E o mesmo se recomenda às mães que, nos grupos de WhatsApp ou de Facebook, estão a combinar saídas com os filhos. Não é porque os grupos de risco são sobretudo os da faixa etária dos avós, que os filhos (ou as próprias) estão imunes ao vírus. As crianças, com menos de dez anos, “têm o mesmo risco de serem infectadas do que o resto da população e a razão por que não se têm observado surtos nas escolas deve-se apenas a que as crianças tendem a ter sintomas suaves”, diz Manuel Carmo Gomes no mesmo artigo. E ainda não se sabe até que ponto os mais novos são transmissores do vírus, entre eles e deles para os familiares. @ PÚBLICO opinião

(As palavras em negrito são da responsabilidade do CRESCER.)

18/10/2019

a minha escola é como uma praça... e também um banco de jardim


      Aproximando-se o fim de semana, o CRESCER partilha este texto de autor com a comunidade. Para ler e refletir. O autor é o psicólogo Eduardo Sá.
      Fiquem bem!

      Na verdade, nada é tão linear como parece. Nem as crianças são pequenas, nem os seus pais crescidos, como aparentam. Elas nem sempre crescem. E eles voltam, por dentro, muitas vezes, para trás. Com o tempo há quem se torne jovem. E quem, entre as oportunidades que tem para crescer, vacile e envelheça. Com o tempo, há quem se torne ingénuo e sábio, arrebatado, amável, terno ou buliçoso. E quem azede, adoçando a ira de euforia. Com o tempo há quem - de cada vez que muda queira começar do zero (como quem deixa de si quase tudo para trás). E há quem recrie tudo o que sabe, nunca partindo sem que leve aquilo que os outros teimam em deixar. Para quem envelhece nada é eterno. Para quem se recria tudo é para sempre. Quem envelhece morre todos os dias, um pouco mais. Quem se recria torna-se jovem, sempre que a aprende.

      Na verdade, nada é tão linear como parece. E é por isso que eu imagino que, um dia, a escola deixe as linhas direitas e se desarrume um bocadinho. E mais pareça uma praça muito grande, onde, a par de todas as matérias que as crianças tenham de aprender, haja um senhor, com bigodes retorcidos e rosetas afogueadas, tomando conta do sorriso, que as torne brincadoras. E lhes explique - devagarinho, se for preciso – que brincar é aprender. As crianças deviam ter recreios de compensação até que aprendessem a brincar. E ninguém as devia largar enquanto não abafassem berlindes, jogassem ao lenço ou à macaca, porque primeiro liga-se o corpo e aquilo que se sente e, só depois, o que se sabe com tudo o que se aprende. É por isso, certamente, que, ao contrário dos sabichões, os sábios nunca são enfadonhos. E um dia, para além da história que vem nos compêndios que cheiram bem, a D. Perpétua, que distribui graçolas com os jornais que vende, todos os dias, devia ensinar às crianças que, tão importante como a conjugação dos verbos e a gramática, a aritmética ou a matemática, é bom chorar no cinema, quando tem de ser. E só se aprende uma história, seja a de um rei ou a de um peixe com memória de grilo, por exemplo quando ela entra por nós sem nenhum «se faz favor!?...» e fica, em parte incerta, cavaqueando baixinho. E que o senhor do talho, que empurra o mundo com o avental, avalie com todo o rigor se cada criança é capaz de rir até às lágrimas, antes de ousar pegar no lápis e escrever aquilo que se acotovela na imaginação. Na verdade, o riso é amigo do espanto. E quem não se espanta nunca aprende que um problema é sempre muito mais importante do que qualquer solução. Ah! E se houver um Doutor Valeroso, de óculos descaídos, que não ensine o português antes de as crianças aprenderem a ir ao último capítulo, logo depois de passarem pela casa da partida, será demais. Como é bom atropelar a imaginação sempre que se adivinha! Sem nunca, mesmo nunca, confundir sonho e devaneio! A escola é uma sala de estar. Tem de aconchegar! E precisa de explicar, ao mesmo tempo, que compreender não é condescender. E que um professor de verdade educa antes de ensinar e é por isso que muitos professores são, muitas vezes, tios e, mesmo não devendo, são um bocadinho pais. A escola devia ser, também, um banco de jardim. E devia pôr, no lugar da unicidade, a pluralidade: diversos professores, muitos amigos, os pais num entra e sai, mais a D. Perpétua, o senhor das rosetas e o homem do talho que educam melhor, e põem mais longe no olhar. A escola devia ter um cantinho, para cada um. E um diretor de turma devia dar poucas aulas. Muito poucas. E devia telefonar, a perguntar pela constipação da Constança e devia fechar a escola, sempre que uma criança se zangasse com ela e a abandonasse. E sempre que uma criança reprovasse duas vezes, devia considerá-la em perigo. Não tanto a criança, mas a escola e a família (que parecem distraídas, uma com a outra, e não a conhecem). A escola é uma praça, uma sala de estar e um banco de jardim. E, com o tempo, devia tornar ingénuos e sábios, arrebatados, amáveis, ternos ou buliçosos todos aqueles que vacilam e envelhecem. Para quem envelhece nada é eterno. Para quem aprende tudo é para sempre. @ blog eduardo sa

25/02/2019

texto de autor



O Dia da Mulher está aí a chegar. 
O CRESCER nunca deixa de o lembrar no dia certo. Porém, hoje vai antecipar um pouco a data, para homenagear a avó de uma nossa ex-aluna que nos brinda, de quando em vez, com poemas que nos mostram quantas artes uma MULHER pode ter. Particularmente quando a idade é provecta (76 anos) e continua a ser interventiva. 
Saído das mãos de uma mulher, que vê a vida como só ela, leiam o poema da D. Rosa Pinto.




Vou...

Vou mudar a forma, o aspeto, ao meu poema
Substituir palavras por imagens e sinais
Falar de coisas verdadeiras, umas com pena,
Outras talvez um pouco irreais.
Quando falar de amor, pôr corações
Às plantas que não dão flor, colocar botões
Para desabrocharem em alegres emoções.
Quanto às crianças, vou desenhar brinquedos,
Iguais aos da minha lembrança, guardadas no baú dos meus segredos.
Tais como: bolas, peões, arcos, berlindes, balões,
Bicicletas, bonecas, carrinhos, (automóveis)…
Mas nunca, nunca, computadores, tablets, telemóveis
Que roubam a cada minuto, a cada instante,
Tempo ao tempo do seu tempo mais importante.
No jardim da alegria, plantar toda a espécie de flor
Porque flor é símbolo de amor.
Às árvores que no Outono perdem a folha,
Adorná-las com raios da luz dos meus olhos à minha escolha.
Perguntar à chuva que cai do céu azul-cinzento:
São lágrimas de alegria ou de lamento?!
Ao vento que passa de mansinho, lesto e de rompante
Vou pedir que espalhe a semente do amor urgentemente
Para que dê flor a todo o instante,
Flor cada vez mais rara e mais ausente.
Ao mar que se pavoneia em constante movimento
Vou fazer ouvir a minha voz, vou implorar,
Que mate a fome e a sede sem matar.
Ao bicho-homem-monstro, em constante guerra
Vou sufocar-lhe a arma, que tanto agita
Dizer-lhe que criança é Esperança, é Primavera
Que chora com fome, dor, medo e já nem grita!
E quando terminar o meu poema,
Vou colocar o mais pequeno, mais minúsculo sinal:
Ponto final.
  
Rosa Pinto
16/02/2019

18/04/2018

texto de autor



Como é habitual nesta rubrica, publicamos textos da responsabilidade dos seus autores. É com muito agrado que hoje se publica um poema da autoria da avó de uma nossa aluna.


Apreciem.


SAUDADE

À noite quando me deito
Na cama que é o meu fado
Minha almofada são penas
Por não te ter a meu lado.
O lençol que me cobre
É lenço prás minhas lágrimas
O cobertor não aquece
Coração cheio de mágoas.
No sono que nunca chega
Sonho contigo, amor
Porque te julgo a meu lado
Pressupondo o teu calor.
De manhã quando acordo
Da noite sem ter dormido
Eu volto a adormecer
Só para sonhar contigo.
Ao nascer da alvorada
Eu continuo acordada
E o dia nasce sem dó
Prevalecendo a noite 
Porque  continuo só.
Para mim a noite e o dia
Têm a mesma claridade
Os meus olhos já cegaram
Pela força da saudade.
Ninguém morre de saudade
Tantas vezes já ouvi
Mas não pode ser verdade
Meu coração vai morrendo
Aos pedacinhos por ti.


Rosa Pinto 

28/06/2017

texto de autor

A propósito de hiperatividade. 

É uma comédia que se acumula no dia-a-dia. Um sujeito vai ao café ler o jornal, e o café está inundado de crianças que não respeitam nada, nem os pardalitos e os pombos, e os pais "ai, desculpe, ele é hiperactivo", que é como quem diz "repare, ele não é mal-educado, ou seja, eu não falhei e não estou a falhar como pai neste preciso momento porque devia levantar o rabo da cadeira para o meter na ordem, mas a questão é que isto é uma questão médica, técnica, sabe?, uma questão que está acima da minha vontade e da vontade do meu menino, olhe, repare como ele aperta o pescoço àquele pombinho, é mais forte do que ele, está a ver?". E o pior é que a comédia já chegou aos jornais. Parece que entre 2007 e 2011 disparou o consumo de medicamentos para a hiperactividade. Parece que os médicos estão preocupados e os pais apreensivos com o efeito dos remédios na personalidade dos filhos. Quem diria? (Citou-se parte do texto. Ler todo o texto aqui.) 

                                                                                                                                       Henrique Raposo

09/10/2015

texto de autor: "com mãos se faz a paz se faz a guerra"

A propósito de uma reflexão feita numa aula de Português sobre esta situação, produziram-se belos textos. Aqui se partilham dois deles.   

Em 1967, Manuel Alegre escreveu “com mãos se faz a paz se faz a guerra”. Provavelmente, o autor referia-se à Humanidade e à capacidade que todos temos de tanto fazer o bem como o mal.
Não podia estar mais de acordo com o escritor. Apesar de todos juntos constituirmos a Humanidade nem todos juntos lutamos pelo bem dela. Um bom exemplo disso passa-se atualmente em toda a Europa, onde o povo Sírio foge à guerra, guerra essa que lhes foi imposta pelo país que os viu nascer, e que os levará à morte certa. 
No entanto, apesar do mal dominar, acredito na entreajuda, na cooperação e na razão, pois se é possível provocar tanto mal e prejudicar tanta gente, é possível também ajudar quem não tem a sorte de viver em paz. Por isso, vejo todos os dias testemunhos de bondade e de solidariedade de pessoas que suspendem as suas vidas confortáveis para ajudar quem mais precisa a ter um nível de vida digno.
Deste modo, a citação de Manuel Alegre, apesar de antiga, continua atual. O bem e o mal, a paz e a guerra sempre viveram interligados e apesar de ser difícil, acredito que “as mãos” que dão início a uma guerra são capazes de finalizá-la e de viver em paz. 
Diana Fernandes


   
   As nossas mãos, por mais que soem como meras estruturas anatómicas, têm um peso e uma conotação exaustivamente marcantes. Por palavras mais nobres, Manuel Alegre descreveu o impacto das nossas mãos, escrevendo “Com mãos se faz a paz se faz a guerra”. Isto é, as nossas mãos, que nos refletem a cada atitude, acompanham quer a construção de pacificidade quer a criação de desumanidade, sendo condutoras de todo o poder que em nós reside. 
    Assim, por mais que se tente fugir da guerra, ela segue cada fraqueza humana e impõe-se quando as nossas crenças a incentivam e, como a essência de cada coisa reside, sobretudo, nas mãos de quem a faz ou desfaz, também a guerra pode começar ou continuar connosco. Este juízo ilustra-se, por exemplo, na crise dos refugiados: várias crenças resultaram em conflitos religiosos, étnicos e separatistas que destroçam países e pessoas continuamente, e o problema é ainda acentuado por muitas mãos que permitem que os migrantes se afoguem na desumanidade dos outros. 
    Todavia, se há pátrias que renegam a compaixão, há pessoas que não a deixam morrer, construindo um elo humano que se abre pela paz, sendo quem decidiu contrariar a xenofobia e lutar pela sanidade dos migrantes exemplo disso.
   Portanto, a guerra e a paz mantêm-se unidas não só pela sua conceção intemporal, mas também porque são feitas de mãos que carregam a cultura, os valores e a índole de quem as usa para agir. E, como tal, o mundo não está só nas nossas mãos mas no que elas fazem e ditam.
Rita Almeida

17/09/2014

texto de autor: "ser professor em tempos de cólera"

Nenhuma classe profissional foi tão maltratada como a dos professores. Nos últimos vinte anos, progressivamente, perderam direitos e autoridade. E, muito mais grave, perderam o reconhecimento do Estado e da comunidade. Encurralados numa sociedade que privilegia a volatilidade e vive para o dia seguinte; humilhados pelas circunstâncias; menosprezados por agendas mediáticas que transformam as notícias numa permanente novela; os professores estão desesperados. Legitimamente desesperados.
Não é uma questão ideológica. Um assunto que divida a esquerda e a direita, liberais e social-democratas, socialistas ou libertários. O menosprezo dos professores é uma vergonha, uma insensatez, um crime contra o futuro. Porque sem eles, sem um reconhecimento explícito do seu papel, sem a capacidade de encontrar maneiras de reencontrarem o sentido da sua profissão, não existirá futuro, progresso, evolução ou elites.
Por isso, neste dia de arranque do ano letivo, mais do que falar do regresso dos alunos, o homenageia os professores e o ser professor, um dos mais extraordinários destinos a que se pode ambicionar. Uma profissão que oferece aos outros o melhor que se tem, como a Marta Reis tão bem escreve nas páginas seguintes. Numa época de tantas desconfianças quase duvidamos de que estas pessoas existem mesmo. O professor que criou um viveiro onde os miúdos produzem ervas aromáticas. A professora inconformada com o curso das coisas que "fugiu" para Moçambique para que o seu sonho não morresse. O professor que, separado por centenas de quilómetros da mulher que ama continua fascinado com a ideia de se sentir útil aos outros. A professora em Lamego que convence todos os alunos, a maioria filhos de agricultores, a candidatarem-se a prémios e a sonharem que é possível alargar horizontes. O professor no Alentejo que leva os seus alunos aos lares para reforçar a identidade local. A professora de Viseu que envolve pais e filhos numa grande comunidade. A professora no Cerco do Porto que convenceu os miúdos, de um dos principais bairros problemáticos do Porto, que não há limites para o saber.
Ser professor é isto. É ter vontade para virar tudo do avesso, provar pelo exemplo e exigir dignificação e respeito. (leia o restante texto de opinião @ jornal I)
Luís Osório e Marta F. Reis
publicado em 15 Set 2014 

30/01/2014

texto de autor: à Filomena



A Filomena é uma mulher muito bonita. Tem os olhos grandes e fundos de uma cor que nos inunda de esperança. A Filomena tem a boca desenhada e arranja-se como uma senhora de rara elegância. Foca o mundo de frente, como só as mulheres de muito carácter, e isso define-a ainda mais vulcânica a cada imagem que vemos dela. Acho a Filomena admiravelmente bonita, mas preferia nunca a ter conhecido para nunca sequer ousar admirar-lhe as feições. 


16 anos depois de todos nós termos conhecido a Filomena, sabemos que continua a ser bonita mas também conseguimos ver que a vida lhe roubou a expressão. A vida de Filomena tirou-lhe o sorriso e a falta do filho penhorou-lhe a alma.

A exposição de um caso, que Filomena nunca terá sonhado vir a ser mediático, leva-nos, a nós, minúsculos espectadores de um sofrimento inenarrável, a assistir àquilo a que se chama tempo a consumir-lhe peso, conforme lhe leva a energia de uma alma inesgotável de luta.


Admiro tanto a Filomena. A cada imagem que vejo, ela é mais bonita do que na anterior, mesmo que a vida lhe tenha aniquilado a expressão. A cada reportagem que passa, volto a encontrá-la alerta, na convicção de que o amor a leva pelo caminho que nunca teve dúvidas que tinha que continuar a trilhar. Penso no que o tempo significa para esta mulher. O peso do tempo. Os minutos que se lhe mostram mais demorados do que em qualquer um outro relógio de pulso. O pulso dela, firme na esperança, dir-lhe-á que o tempo passa ao ritmo de um batimento cardíaco que não tem maneira de conseguir sossegar por viver no vácuo do que lhe faz falta ao aconchego. A Filomena veio lembrar que continua a querer saber do Rui Pedro, ao avivar a memória dos 27 anos do filho. Surgiu de olhos grandes e fundos da cor que nos inunda de esperança. Apareceu de boca desenhada como uma senhora de rara elegância. Focou o mundo de frente, mais uma vez. Estava mais bonita do que de todas as vezes.

Há uns anos, ouvi o António Lobo Antunes dizer, numa entrevista, uma frase que nunca mais me saiu da memória: “Os pais estão entre nós e a morte”. O Rui Pedro está entre a Filomena e a vida. Seja isso o que quer que seja que lhe continue a dar esperança de ser ainda mais bonita do que aquilo que já é.

23/01/2014

texto de autor: educação, ciência e economia: um ministro pouco sábio


Vários têm sido, no Governo, os candidatos ao título de campeão da asneira. Rui Machete tem-se esforçado, mas, não querendo ficar atrás dessa figura maior do PSD, um político do CDS, António Pires de Lima, ministro da Economia (dividindo a pasta com Paulo Portas), resolveu entrar na competição quando defendeu há meses a introdução nas escolas básicas e secundárias de uma disciplina obrigatória de Empreendedorismo. A ideia não é só dele: é parte da “Estratégia de Fomento Industrial” aprovada em Conselho de Ministros. A escola, pela voz do ministro da Economia e com a aprovação de todo o Governo, tem de estar ao serviço dos negócios. por Carlos Fiolhais @PÚBLICO

04/11/2013

texto de autor: a vida

A vida é como uma teia e quem a tece somos nós com as nossas escolhas e decisões. Por vezes erramos, mas voltamos atrás e tentamos remendar o mal que fizemos; quando não há nada que se possa fazer, a nossa teia fica com “buraquinhos”.
Outras vezes, estamos tão ocupados a pensar no futuro, em seguir em frente, que nem reparamos em quem está ao nosso lado e magoamos quem não devíamos e, com isso, sofremos muito. Depois, a nossa teia fica com tantos “buraquinhos” que nós acabamos por cair e por nos magoar também.
Não há uma vida perfeita! Há sempre algo que faz com que se prejudique os outros; mas nós podemos lutar por uma vida melhor. Isso, sim, é possível!
Umas pessoas dizem que a vida é dura, difícil, triste... Outras dizem que é linda, fantástica, incrível... Mas a vida é assim mesmo: algumas vezes, é dura, difícil e triste quando choramos, gritamos... outras vezes, é fantástica, linda, incrível, maravilhosa, fenomenal quando rimos, sorrimos, cantamos, festejamos... A vida é constituída por alegria/tristeza, choros/risos... É mesmo assim.
Se nós queremos algo que nos realize, devemos lutar por isso, mas não nos podemos esquecer das pessoas fantásticas que temos ao nosso lado, que nos apoiam, que nos dão conselhos, que nos abrem os olhos... Estas pessoas são muito importantes para nós. Elas marcam-nos com os pequenos e grandes gestos; elas fazem-nos crescer a cada dia que passa.
Nos momentos mais tristes e trágicos, essas pessoas, que até podem ser insignificantes, ajudam-nos, apoiam-nos e, acima de tudo, ouvem-nos: ouvem as nossas mágoas, as nossas tristezas, tudo o que temos dentro de nós, aquilo que está “entalado” e que mais ninguém sabe e ouve. Mas, quando não temos ninguém, só podemos fazer três coisas: levantar a cabeça, pensar positivo e seguir em frente.
Custa muito ultrapassar as adversidades da vida, mas há que acreditar que há sempre algo de bom à nossa espera.
A vida é tudo isto!
SE QUEREMOS UMA VIDA FELIZ, TEMOS A OBRIGAÇÃO DE LUTAR PARA A ALCANÇAR.
Sam Freitas*
*pseudónimo 

25/10/2013

texto de autor: felicidade

Hoje dia 20 de outubro, vivenciei um acontecimento que me emocionou a mim e aos meus colegas de equipa. Às 4.30 da tarde, o jogo em que participamos terminou com uma vitória do nosso clube por um ponto. Foi um jogo difícil contra a Juventude Pacense, que acabou por nos ser favorável e nos manter invictos.
Para mim não foi um jogo fácil porque joguei pouco tempo. Desta vez não fui opção para o treinador e isso deixou-me de tal modo irritado que só consegui vibrar com o resultado mesmo no final. A alegria dos meus colegas, o espírito de equipa e as cores do clube falaram mais alto e consegui abstrair-me da minha irritação.
O momento que se seguiu contribuiu ainda mais para que eu me apercebesse de que estava realmente a reagir de forma errada. No nosso banco, estava um elemento, irmão de um colega nosso, que tem Trissomia 21 e que acompanha muitos jogos. Para ele era um dia especial porque fazia 21 anos. No clube temos uma tradição, quem faz anos ou se estreia a jogar ou “vai ao túnel”. O túnel consiste na formação de duas filas paralelas por onde o jogador passa e vai levando umas valentes palmadas nas costas, cumprindo assim a sua praxe.
Hoje foi a vez do Luís que, não sendo jogador do clube, é um elemento por quem temos um enorme carinho. Formamos o túnel, e ele passou a correr para um lado e para o outro com um grande sorriso de felicidade estampada no rosto. A felicidade nos olhos dele, da mãe, do pai e do irmão ao verem a sua alegria emocionou-nos a todos.
Este momento levou-me a pensar. Nós ficamos aborrecidos por coisas tão pequenas! Com a derrota do nosso clube, com a namorada que terminou a relação, por não termos sempre aquilo que queremos... Mas não nos lembramos que há pessoas que são felizes com coisas simples, como a amizade e a atenção e que nunca poderão experimentar o mesmo que nós.
Será que vale mesmo a pena zangar-me, irritar-me por tão pouco?

Obrigado, Luís, sem querer fizeste-me perceber que estava a agir de forma errada! Que tenhas um dia muito feliz!
André Vilarinho Castro*
*Tem 15 anos, frequenta o 10º ano, e escreveu este texto ao Luís no dia em que ele fez 21 anos.

15/10/2013

texto de autor: o que nos espera

Os portugueses estão a poucas horas de conhecerem os pormenores de um Orçamento do Estado crítico para o futuro próximo do País, que está nas ruas há semanas, com informações e contra-informações e que, no mínimo, assusta os mais corajosos.
Os portugueses estão a poucas horas de conhecerem os pormenores de um Orçamento do Estado crítico para o futuro próximo do País, que está nas ruas há semanas, com informações e contra-informações e que, no mínimo, assusta os mais corajosos. Não só por uma austeridade que seria sempre necessária, por um enorme corte de despesa pré-anunciado, mas sobretudo porque o Governo dá sinais de desorientação, sem rumo e só com uma preocupação, a de cortar a eito, para responder à ‘troika' e aos mercados.
O episódio em torno das pensões de sobrevivência é um bom exemplo de uma má prática governativa, que esconde muito mais do que ‘apenas' uma má comunicação política. Antes fosse. Como é que é possível que o vice-primeiro-ministro interrompa um Conselho de Ministros de dezenas de horas para fazer uma conferência de imprensa sobre uma medida que vale 100 milhões de euros!? O défice de 2013, de 5,5% do PIB, vale cerca de nove mil milhões de euros.
Só há uma explicação possível: depois da fuga de informação para a TSF - que fez o seu trabalho, claro - a medida de 100 milhões valia muito mais, valia a reputação de um líder ‘irrevogável' do CDS que obrigou a ministra das Finanças a prestar-se, outra vez, ao papel de ‘ajudante', sem direito a palavra. Só para a comprometer politicamente. Ainda por cima, para anunciar uma decisão que não afecta praticamente ninguém, depois do caos de uma semana de incerteza para centenas de milhar de pensionistas. É neste ambiente dentro da coligação que se pressente uma desorientação política. Se não há desorientação, os ministros disfarçam muito bem.
O calendário acelerou, o tempo do Governo encurtou-se. Mas, no meio desta confusão, há um mérito: a discussão voltou a centrar-se na despesa pública, e esse é o problema, o excesso de despesa, e os cortes nos salários da função pública e nas pensões, porque consomem mais de 70% da despesa. Já está anunciado um outro corte, o das pensões da Caixa Geral de Aposentações, em média de 10%, mas não se sabe como é que vai ser articulado com outras decisões, uma decisão que vale 740 milhões de euros. E os cortes nos salários dos trabalhadores do Estado entre os 2,5% e os 12% a partir dos dois mil euros brutos de salários, esses, vão substituir uma nova tabela salarial na Função Pública prometida em Maio e que acabou numa gaveta, e não foi por causa do Tribunal Constitucional, para garantir pelo menos mais 500 milhões de euros.
É evidente que o Governo acabaria por chegar aos cortes de despesa, mas chega tarde, de rastos do ponto de vista político e no auge da conflitualidade social. E nem sequer consegue capitalizar as notícias de estabilização da economia, nem as poucas medidas de estímulo ao investimento, como a descida do IRC em dois pontos percentuais, que também constam do Orçamento do próximo ano.
O Governo, agora, não tem tempo, pode queixar-se da instabilidade causada por um colectivo de juízes do Tribunal Constitucional que decidiu proteger a falência do Estado a viabilizar uma saída para a crise financeira, mas deve queixar-se também de si próprio.
Se o primeiro-ministro falhar, é o Governo que falha, não é o País, o País sofrerá as consequências desse falhanço. Por isso se percebe a pressa. O Governo tem de convencer os credores, institucionais e privados, de que estará em condições de regressar aos mercados, de se financiar de forma autónoma, mesmo com a ‘rede' do BCE, a partir de meados do próximo ano. E isso é a principal preocupação do Orçamento do Estado que vamos conhecer hoje em detalhe. Portugal teria de ter, mesmo, um orçamento com corte de despesa, mas, agora, não é a qualidade da reforma do Estado, é a quantidade dos cortes, que têm mesmo de ser realizados, que está em causa. Se o Tribunal Constitucional deixar. 
António Costa @ Económico

25/09/2013

texto de autor: carta aos 19%

Caro desempregado,


Em nome de Portugal, gostaria de agradecer o teu contributo para o sucesso económico do nosso país. Portugal tem tido um desempenho exemplar, e o ajustamento está a ser muito bem-sucedido, o que não seria possível sem a tua presença permanente na fila para o centro de emprego. Está a ser feito um enorme esforço para que Portugal recupere a confiança dos mercados e, pelos vistos, os mercados só confiam em Portugal se tu não puderes trabalhar.  O teu desemprego, embora possa ser ligeiramente desagradável para ti, é medicinal para a nossa economia. Os investidores não apostam no nosso país se souberem que tu arranjaste emprego. Preferem emprestar dinheiro a pessoas desempregadas.

Antigamente, estávamos todos a viver acima das nossas possibilidades. Agora estamos só a viver, o que aparentemente continua a estar acima das nossas possibilidades. Começamos a perceber que as nossas necessidades estão acima das nossas possibilidades. A tua necessidade de arranjar um emprego está muito acima das tuas possibilidades. É possível que a tua necessidade de comer também esteja. Tens de pagar impostos acima das tuas possibilidades para poderes viver abaixo das tuas necessidades. Viver mal é caríssimo.

Não estás sozinho. O governo prepara-se para propor rescisões amigáveis a milhares de funcionários públicos. Vais ter companhia. Segundo o primeiro-ministro, as rescisões não são despedimentos, são janelas de oportunidade. O melhor é agasalhares-te bem, porque o governo tem aberto tantas janelas de oportunidade que se torna difícil evitar as correntes de ar de oportunidade. Há quem sinta a tentação de se abeirar de uma destas janelas de oportunidade e de se atirar cá para baixo. É mal pensado. Temos uma dívida enorme para pagar, e a melhor maneira de conseguir pagá-la é impedir que um quinto dos trabalhadores possa produzir. Aceita a tua função neste processo e não esperneies.

Tem calma. E não te preocupes. O teu desemprego está dentro das previsões do governo. Que diabo, isso tem de te tranquilizar de algum modo. Felizmente, a tua miséria não apanhou ninguém de surpresa, o que é excelente. A miséria previsível é a preferida de toda a gente. Repara como o governo te preparou para a crise. Se acontecer a Portugal o mesmo que ao Chipre, é deixá-los ir à tua conta bancária confiscar uma parcela dos teus depósitos. Já não tens lá nada para ser confiscado. Podes ficar tranquilo. E não tens nada que agradecer.

19/09/2013

texto de autor: sobre os alunos com necessidades educativas especiais (NEE)


Há um provérbio chinês que diz que “se pode ver o mundo numa folha de chá”. Entende-se o sentido: o infinitamente pequeno tem características em tudo semelhantes ao que é bem maior e assim se encontra um sentido unificador para todo o mundo.

Há alguns dias, o ministro da Educação, Prof. Nuno Crato, numa entrevista televisiva pronunciou-se – diríamos finalmente – sobre os alunos com necessidades educativas especiais (NEE). Entre outras coisas disse textualmente: “Estão integrados na turma mas na verdade não estão. Naturalmente o que acontece naquele caso concreto é que aqueles alunos pertencem à turma mas dadas as suas necessidades eles não convivem com os alunos daquela turma. Portanto é muito mais uma questão administrativa do que outra”.

Esta simples frase, como a folha de chá, é bem ilustrativa de um pensamento global e de uma lógica de acção face à educação de alunos com dificuldades. Vamos analisar só três aspetos da frase:

1.       “Estão integrados na turma mas na verdade não estão”. To be or not to be… eis a questão. Mas afinal estão integrados ou não estão?
Quer dizer… no papel “eles” integram a turma mas na realidade é só de “faz de conta”.  A turma é uma coisa e os alunos com NEE são outra… Não é difícil continuar o raciocínio: seria uma estultícia considerar que alunos com dificuldades fazem parte da turma, que estão integrados na turma. A verdade, é que não estão e isto “da integração” é só para visionamento turístico. Bem difícil entender este raciocínio quando Portugal há mais de 20 anos tem seguido uma política de Inclusão (não de “integração”) em que se considera que a presença de alunos com dificuldades na sala de aula é um fator que não só os beneficia a eles por estarem num meio mais estimulante e com maiores expectativas, mas também os restantes alunos que aprendem conteúdos, estratégias e valores com este ambiente inclusivo.

2.       “Dadas as suas necessidades não convivem com os alunos daquela turma”.  Mas as suas necessidades incluem a ausência de convívio? Hoje não é sequer posto em causa que os ambientes mais estimulantes têm um papel de extraordinária importância no desenvolvimento de todos os alunos e em particular daqueles que
mostram ter mais dificuldades na aprendizagem. Portanto, se têm necessidades acrescidas, espera-se que a convivência e a interação com outros alunos sejam ferramentas fundamentais para potenciar o seu desenvolvimento. Dizer que não convivem por causa das suas necessidades é encarar as “suas necessidades” como inelutáveis e considerar que o convívio se deve passar só “entre iguais”.  Aqui voltamos a estar a muitas léguas do que se pensa e do que se sabe sobre a promoção de ambientes inclusivos.

3.       “Portanto é mais uma questão administrativa do que outra”. Este é sem dúvida um argumento no qual se baseia muita da política educativa do presente. Quando se reivindicam mais meios, mais apoios, mais professores, mais serviços, a resposta é que “administrativamente” tudo está certo: os rácios, os lugares preenchidos, etc. Esta lógica “administrativa” procura desarmar a contestação: se tudo está conforme os ditames administrativos afinal qual é o problema? O problema é muito simples e é fácil de explicar a pessoas com formação de Economia. A Economia é uma Ciência Humana e a Contabilidade não é. Quer dizer que quando se pensa na dinâmica das instituições ou das sociedades, tem que se levar em conta muito mais fatores do que a lógica “administrativa”. Se a Educação se gerisse administrativamente podíamos colocar em lugar do ministro um programa informático. Mas não podemos. Dizer que a colocação de alunos e a sua participação é uma questão administrativa é portanto um grande empobrecimento da riqueza do debate.

Através destes três comentários de uma frase do responsável maior da Educação no nosso país, vemos quanto caminho é preciso andar. É preciso andar muito de onde estamos e será preciso andar ainda muito mais se o ponto de partida for deslocado lá para  trás. Ao arrepio do que se sabe, do que se  pratica, da legislação portuguesa em vigor e dos compromissos internacionais que assumimos. Queremos acreditar que não e para isso contamos com os professores, com os pais, com as famílias, com as comunidades para resistir a este encolhimento e adulteração do conceito inclusão.

David Rodrigues é Professor Universitário e Presidente da Pró-Inclusão

– Associação Nacional de Docentes de Educação Especial. O autor
escreve segundo o Acordo Ortográfico.

10/09/2013

texto de autor: vai começar a escola

Em muitíssimas circunstâncias da nossa vida, quando alguma coisa não correu bem, é possível recomeçar e tentar de novo com a expectativa de se ser melhor sucedido. Todos nós experimentámos episódios deste tipo.
Pois bem, o  processo de início da escolaridade envolve na verdade um conjunto de circunstâncias irreversíveis, ou seja, quando corre mal já não é possível voltar atrás e recomeçar com a esperança de que a situação vá correr melhor. Por isso se torna imprescindível que o começo seja positivo. Para isso, importa que seja pensado e orientado, que crie as rotinas, a adaptação e a confiança em miúdos e em pais indispensáveis à aprendizagem e ao desenvolvimento bem sucedidos.
É fundamental não esquecer que os miúdos à "entrada" na escola não estão todos nas mesmas condições, pelas mais variadas razões, ambiente e experiências familiares, percurso anterior, características
individuais, etc. o que exige desde o início uma atenção diferenciada que combata a cultura de que devem ser todos tratados da mesma maneira que alguma opinião publicada e ignorante defende.
Antes de, com voluntarismo e empenho, se tentar ensinar aos miúdos as coisas da escola é preciso, como sempre afirmo, dar tempo, oportunidade e espaço para que os miúdos aprendam a escola. Depois de aprenderem a escola estarão mais disponíveis para aprender então as coisas da escola.
Compete-nos a nós que chegámos à vida mais cedo, tentar que estes primeiros dias da vida escolar dos miúdos sejam os primeiros de muitos dias bem sucedidos que terão pela frente.
Daqui a pouco tempo começam a ser, por assim dizer, intoxicados com escola, oito ou dez horas por dia, e começa o tempo em que acabou a brincadeira, é o tempo da escola "a sério".
Em muitos casos, rapidamente os miúdos se sentirão pressionados para a excelência, o mundo não é para gente sem sucesso. Vão ter que adquirir competências, muitas competências, em variadíssimas áreas, porque é preciso ser bom em tudo e é preciso preparar para o futuro, curiosamente, descuidando, por vezes, o presente.
E vão também começar a perceber como anda confusa a cabeça dos adultos, como estamos sem perceber o nosso próprio presente e com dificuldade em antecipar o futuro, que será o presente deles. Vão, parte deles, desaprender de rir, de se sentir bem e de brincar, a coisa mais séria que sempre fizeram. Vão ouvir cada vez mais frequentemente qualquer coisa como "não podes fazer isso, já és uma mulherzinha, ou um homenzinho", como se as mulherzinhas e os homenzinhos já crescidos não fizessem asneiras. Vão conhecer tempos em que se sentem sós e perdidos com um mundo demasiado grande pela frente.
Mais cedo ou mais tarde, alguns deles, vão sentir uma dor branda que faz parte do crescer mas que, às vezes, não passa com o crescer. Também sei, felizmente que a grande maioria vai continuar a sentir-se bem, por dentro e para fora.
Pode parecer-vos um pouco estranho, mas gostava que a estes miúdos que agora vão começar "a escola", tal como aos outros que já a cumprem, lhes apetecesse "fugir para a escola" e que nós possamos ser capazes de lhes dizer "Cresçam devagarinho, não tenham pressa".
É que depressa e bem, não há quem, como se costuma dizer.

                                                                                           José Morgado, professor universitário no ISPA

30/07/2013

texto de autor: quem vem jantar a casa?


O que se está a passar, neste preciso momento, nas escolas portuguesas é o seguinte: a 31 de julho, quarta-feira, devem ser publicadas as turmas (provisórias); logo de seguida, comunicado o número de professores necessários em função das necessidades. Agosto. Concurso de professores para lá, concursos de professores para cá, fazer horários… em setembro tem de estar tudo pronto para o arranque. Está sempre tudo pronto para o arranque, as escolas fazem por isso. O Ministério não. E este ano aprimorou-se: a 26 de julho, sexta-feira, fim da tarde, indicou o número de turmas/cursos que autoriza sejam abertos em cada escola. Não, não são as escolas que decidem, em função do número de matrículas vs espaço. E, convém frisar, em junho, há as chamadas reuniões de rede escolar, em que as escolas se sentam à mesa com a tutela e se discute esta organização/distribuição.
Mas, nesta sexta-feira dia 26, quando muitas escolas já tinham as turmas praticamente feitas, quando publicitaram as suas ofertas formativas, quando contactaram pais e alunos para regularizarem este ou aquele pormenor ou para lhes indicar que aquele curso/disciplina não iria existir na escola, informando das alternativas, enfim, quando tinham esse trabalho praticamente feito, o Ministério, através de um dos seus organismos, publicou a lista de cursos/turmas autorizados(as) para cada escola/agrupamento e lançou o caos: mudou as ofertas dos cursos profissionais, reduziu o número de turmas em várias escolas, eliminou turmas CEF com alunos inscritos, enfim, queimou o jantar pouco antes de ser posto à mesa. E fez algo mais fantástico, fê-lo em cima do acontecimento. Imagine-se o leitor em sua casa e dizem-lhe para convidar vinte pessoas para jantar: a comida será da responsabilidade de uma empresa de confiança. Manda convites atempadamente, publicita o evento convenientemente, prepara a sala com cuidado, prepara a mesa, recebe os convidados… e depois trazem-lhe duas coxas de frango para o jantar.
É assim que o Ministério tratou as escolas, as direções, os alunos. São inúmeros os casos relatados em inúmeras escolas, que se começam agora a conhecer: em várias escolas, o número de turmas autorizadas está abaixo das necessárias para o número REAL de alunos matriculados (que se faz aos restantes?); há cursos profissionais com anos de existência numa localidade, com vinte e muitos alunos inscritos, que são apagados e substituídos por outros cursos que nem sequer tinham sido discutidos, menos ainda comunicados ao público, há alunos que deveriam seguir um curso de educação formação e terão de ficar no ensino regular… e quem é que vai passar por incompetente? Quem é que vai ter que dar a cara para dar o dito por não dito? Quem vê todo o seu trabalho, um trabalho sério que merece respeito, deitado ao lixo? A três dias úteis do fim de julho?...
E é nestas condições que se trabalha nas escolas. Surpreendentemente (ou nem tanto assim, quando o interesse do poder é esse) a maioria dos portugueses desconhece esta realidade. Apesar de, direta ou indiretamente, ser parte interessada : quem não tem familiares nas escolas? ou vai ter? já para não falar do tão propalado "interesse nacional" da Educação... A maioria dos portugueses ouve o discurso dos políticos na TV, sérios e convictos, e cria uma imagem. Nuno Crato, por exemplo. Tão credível... Possivelmente, até acredita nele quando ouve coisas como "liberdade de escolha" e "mérito" e “superior interesse dos alunos” e “estamos a trabalhar para”. Pois é este o tipo de trabalho que estão a fazer: em cima do joelho, passando por cima do trabalho feito nas escolas e do “superior interesse dos alunos”, que só interessa para enfeitar discursos “politicamente corretos”. Para quem conhece a realidade, para quem vive a e na escola, este tipo de discurso é de um cinismo, de uma falta de ética, de verdade, de seriedade que enoja!

E isto será, mais uma vez, e à semelhança de tantas e tantas outras ocorrências, com este e com os outros governos dos últimos anos, um episódio. E este episódio faz tão pouco sentido que não pode dar em nada. As turmas terão de abrir, de acordo com o número REAL de alunos que existe no nosso país, nas respetivas localidades. Mas é o suficiente para, em finais de julho, com tanto para fazer para que tudo arranque em setembro, causar mais desgaste, mais confusão. Para, MAIS UMA VEZ, aparecerem as parangonas nos jornais e televisões e as pessoas pensarem... "lá estão os professores a queixar-se outra vez!!!". Pois, já alguma vez pensaram que os professores PODEM ATÉ TER RAZÃO?!?!?

Que bem estaríamos todos se, em todos os anos, há anos, não fosse este circo anual em que tudo muda! 

Fátima Inácio Gomes, em 29.07.13