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19/04/2024

desafio: "onde estava no 25 de abril (de 1974)?" (14)


Estando com 9 anos, quase a fazer 10, e a frequentar a antiga 4ª classe, tenho memórias muito difusas da manhã do 25 de abril de 1974.  Fui para a escola como de costume e estranhei que o professor estivesse a tirar da parede os quadros das figuras do regime.

Estranhei, mas não tive perceção do que estava a acontecer.

Estranhei sim ver o meu pai à porta da sala de aula.
Muito estranho mesmo.
Não era hábito ir-me buscar, muito menos a meio da manhã enquanto a aula decorria.
Mandou-me para o carro.
E já no carro, comunicou-me que existia uma revolução em  andamento.
Pareceu-me contente, embora visivelmente nervoso.
Procurei aviões no céu, militares, armas.
Revolução para mim significava guerra.
Mal eu sabia que testemunhava uma revolução dos cravos.

Vim para casa.
A emissão televisiva estava interrompida. 
Os desenhos animados tardavam.
Os adultos falavam animadamente, embora o seu semblante transmitisse preocupação.

Eu só queria ver aviões.

Cresci com as portas que abril abriu.
Fiz-me jovem, adolescente, aprendi  a liberdade.

Do menino que queria ver os aviões no céu a lutar, transformei-me no homem que viu um povo a lutar, a defender o que mais caro tem, a sua liberdade.

Hoje, estou preocupado. 
A liberdade é dada como garantida.
Engano.
A liberdade conquista-se.
Todos os dias.
Não com aviões no céu.
Mas com o odor dos cravos.

António Leite (professor de Geografia)