Morrer só - uma realidade inevitável?
Uma mulher foi encontrada morta em casa, no Bairro de S. Roque, Campanhã, na passada sexta feira. O alerta foi dado pela médica de família uma vez que a utente não comparecia às consultas. Fernanda, 73 anos, estava morta - não há dias ou meses, mas há 2 anos! Segundo notícia publicada no JN, os vizinhos recordam uma pessoa pouco dada a convívios, daí não terem estranhado a sua ausência. Talvez estivesse internada? Talvez estivesse num lar?
Ainda que esporadicamente noticiado, este é mais um caso de alguém que não usufruiu de um fim de vida digno e evidencia a ausência de um espírito de comunidade. Muito provavelmente, Fernanda viveu só e seguramente morreu só.
Numa sociedade em que nos centramos cada vez mais em nós próprios, preocupados com o nosso mundo e a nossa esfera de influência, num rodopio constante, tentando dar vazão a uma imensidão de afazeres e solicitações, a preocupação com o outro tem sido relegada para um lugar menos relevante na nossa lista de prioridades. De facto, longe vão os tempos em que conhecíamos todos os moradores do prédio, os vizinhos da rua ou até mesmo os colegas de trabalho. Ou onde a agenda parecia encaixar tempo para mais um telefonema, mais "um cafezinho", onde dois dedos de conversa se prolongavam por longos minutos ou mesmo horas.
A esperança média de vida tem vindo a aumentar - vivemos mais tempo e temos mais cuidados médicos disponíveis. Mas a longevidade só faz sentido se for acompanhada de qualidade e humanidade. As respostas sociais têm de ser repensadas, é certo. Mas para evitarmos futuras "Fernandas" ou situações de abandono e/ou isolamento, não podemos deixar a inciativa apenas no Estado. Não é apenas um problema dos "outros" ou "deles". É nosso!
Conheça e dê-se a conhecer. Da próxima vez que cruzar com um vizinho ou um colega, diga-lhe olá e dispense-lhe alguns segundos do seu tempo. Talvez um dia venham a sentir a sua falta...
Constância Silva

2 comentários:
Verdade absoluta, infelizmente!
O "alheamento social" e a falta de solidariedade são uma dura realidade.
Reflexão! É uma necessidade individual e coletiva.
"Conheça e dê-se a conhecer. Da próxima vez que cruzar com um vizinho ou um colega, diga-lhe olá e dispense-lhe alguns segundos do seu tempo. Talvez um dia venham a sentir a sua falta..." 👏
Enviar um comentário