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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

de volta com "as escolhas de..."

Todas as sextas-feiras o CRESCER anda por aí a fazer perguntas para todos podermos conhecer melhor alguns rostos da escola.


Desta vez, pedimos as escolhas relativas a um livro, um filme, uma música e uma personalidade da sua área de formação...


As escolhas de Ana Granja, docente de Psicologia/Filosofia.





Um livro (não! livros)
 A Desumanização, de Valter Hugo Mãe e Sem ti, Inês e (Em) Pedaços, da minha autoria

Valter Hugo Mãe é o meu autor português contemporâneo preferido. Li todos os seus livros, mas este é, porventura, o seu melhor romance. O livro é uma ode à Islândia e retrata, de forma sublime, a relação entre o homem e as forças primordiais e misteriosas de uma natureza inóspita e ainda intocada pela mão humana. Numa aldeia perdida num fiorde islandês, parece que só sobra aos habitantes o sofrimento, a solidão e o abandono. É lá que Halldora, uma menina de onze anos, tenta resistir e sobreviver à perda da sua irmã gémea. Como ela própria se define, é a “menos morta” das duas irmãs.

Mas, apesar da dor da perda, da inevitável solidão, do amargo sofrimento, há também espaço para o assombro do belo e para a presença de deus. Não o Deus emprestado de qualquer religião monoteísta, mas o deus silencioso e discreto que se manifesta nas coisas, na natureza e na poesia, e nos mostra como é possível coexistirem o grotesco e o sublime, a morte e a vida, a tristeza e a esperança.
Numa sessão de apresentação deste livro, o próprio autor afirma: “Este livro pretende mostrar o que há de gente em nós”.
Escolhi também dois livros da minha autoria: “Sem ti, Inês” e “(Em) Pedaços”. Escolhi-os não pelo seu valor literário, claro, o que seria presunçoso da minha parte, mas pelo significado profundo que assumem na trajetória do meu luto.

Um filme
As nossas escolhas são sempre condicionadas pelas nossas experiências vivenciais, e não poderia ser diferente neste caso. A minha condição de mãe em luto impeliu-me a escolher O quarto filho, filme vencedor da Palma de Ouro do festival de Cannes em 2001, realizado e interpretado por Nanni Moretti. É um filme profundamente desolador e humano, que retrata a caminhada existencial de uma família após a morte do filho adolescente. O quarto simboliza, no universo objetivo mas também subjetivo, o que sobra do filho morto. O filme mostra, de forma profundamente humana, a experiência devastadora de ressignificar a existência e restaurar a paz interior após a maior amputação que a vida pode proporcionar.

Uma música
In loving memory de Alter Bridge
Escolho esta música pelo significado da letra, pelas recordações que me traz… e por tanto, que não consigo dizer.



Uma personalidade
António Damásio


António Damásio é um neurocientista português que trabalha no estudo do cérebro e das emoções humanas. As suas investigações tiveram o inegável mérito de pôr em casa a perspetiva tradicional sobre a natureza da racionalidade, demonstrando que a expressão racional está baseada em emoções. Segundo Damásio, quer do ponto de vista fisiológico quer funcional, e contrariando a tradição racionalista/ cartesiana, as emoções e as cognições não são entidades autónomas, não se devendo por isso excluir as emoções e os sentimentos de qualquer conceção geral da mente humana. Embora emergentes de uma área científica específica, concretamente da neurologia, estas descobertas tiveram, e têm, ampla ressonância em áreas do saber que me são mais próximas, como a filosofia e a psicologia. 
Ana Pinto e Rita Almeida

1 comentário:

ângela ferreira disse...

As escolhas envolvem sentimentos profundos!
Viajam no coração num tremendo vai e vém...
Em direção à alma alojada na porta dos fundos...