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19/11/2012

homenagem a Manuel António Pina


A luz das palavras

Esta exposição documental, no Museu Nacional da Imprensa, inaugurada este domingo, às 16 horas, reflete múltiplas luminosidades. Que atravessam o jornalismo e a literatura. Trata-se de mostrar, ainda a quente, a vida e obra de um jornalista cuja ausência se torna tão presente. Manuel António Pina tinha a luz das palavras.
A relação de MAP com a essência das palavras é, de resto, muito especial. E surge logo nos seus primeiros poemas, em 1971: "o que é feito das palavras senão as palavras?" (verso de Já não é possível, in "O armário").
MAP é o artesão das palavras que ajudam a pensar as coisas, a vida e o próprio pensamento sobre as coisas e a vida que levamos. Poética e ludicamente, filosofa sobre a (des)construção das palavras. Brinca com elas, numa surpreendente produção de sentidos que constitui uma das caraterísticas mais singulares da sua obra.
Se na poesia e na literatura infantojuvenil foi mestre, mais forte e constante se revelou no papel de cronista sem medo. Nesta dimensão, MAP foi um construtor da consciência cívica. Sobre a análise da vida social, política, económica. Sobre a vida da gente. Ele era o arauto que dizia: venham ver como isto é. Estava escondido, é assim, zás trás pás! Sem medos.
A gente lia e entendia. Só raramente era rebuscado, erudito, pouco acessível. A clareza e a frontalidade imperam nos seus textos. Tanto no "Jornal de Notícias" como noutras publicações.
Nas suas crónicas, MAP desemaranhava a realidade para melhor nos mostrar a essência do real. E com a sua certeza das dúvidas, ajudava-nos a pensar o quotidiano da democracia. Neste sentido, é ainda uma chama de lucidez na opinião pública. Um archote, com cintilações de sarcasmo e ironia. A iluminação pública das palavras. 

19/10/2012

morreu Manuel António Pina


O poeta e autor de livros infantis, prémio Camões em 2011, morreu no Porto esta sexta-feira.
«Ainda não é o princípio nem o fim do mundo, calma é apenas um pouco tarde» é um dos títulos da poesia de Manuel António Pina, que lhe poderia servir de epitáfio. Poeta, gostava de dizer que este género literário era entronizado em demasia num país que pouco lhe presta a atenção: «A poesia tem um prestígio excessivo». São, aliás, deste livro os versos irónicos «A poesia vai acabar, os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis».
Manuel António Pina morreu hoje, aos 68 anos, no Hospital de Santo António, no Porto, cidade que cedo o adoptou (e que foi adoptada por ele), desde que por lá se fixou aos 17 anos de idade. Praticamente não mais saiu da Invicta: «Viajar é perder amigos», dizia ele ao Sol em Janeiro de 2008, e ia mais longe na ideia, «é perder países». @ SOL

O CRESCER recomenda a visualização de um post de 26 de abril de 2012, onde aqui se homenageou Manuel António Pina, com o seu " O Tesouro".

26/09/2011

as vacas, o PR e a metáfora

Afinal, o PR só aguardava o momento propício para dizer de sua justiça. E o momento chegou ontem (nos Açores, onde haveria de ser?). O país ficou a saber o que o PR pensa não só sobre a Madeira mas também sobre os demais problemas que afligem os portugueses e mantêm o país em estado de alerta laranja: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante".
Trata-se de uma tomada de posição enigmática mas que, devidamente decifrada, decerto tranquilizará os portugueses: quem sabe se "vacas" não será uma metáfora de "mercados" e se o "pasto que começava a ficar verdejante" não significará a diminuição do défice ou que o ministro Álvaro irá finalmente aparecer numa manhã de nevoeiro?
Ganha assim sentido o misterioso conceito de "magistratura activa" que Cavaco não se cansou de prometer aos portugueses durante a sua campanha eleitoral.

Crónicas, Manuel António Pina