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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

direito ao contraditório

E, de repente, sem que nos apercebamos, neste país cinzento por dentro e por fora, elas, as magnólias, surgem em cada jardim, em cada rua, inopinadamente, no seu "direito ao contraditório", a mostrar que estão ali.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la 
E comer um fruto é saber-lhe o sentido. 
Por isso quando num dia de calor 
Me sinto triste de gozá-lo tanto. 
E me deito ao comprido na erva, 
E fecho os olhos quentes, 
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, 
Sei a verdade e sou feliz. 


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - "Poema IX" 

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria  a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

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